Teste Duvernay: A representatividade Negra e/ou Étnica posta em xeque

Manohla Dargis, esse é o nome da critica de cinema do New York Times que em 2016 resolveu criar o Teste Duvernay, baseado no Teste Bechdel durante o Sudance Festival, evento de cinema alternativo onde foi apresentado o filme ‘The Birth of a Nation’.

O nome é uma homenagem à Ava Duvernay, diretora do filme SELMA, que se refere à histórica marcha desta cidade até Montgomery, no Alabama em prol do direito ao voto dos negros.

Dargis atribuiu a esse teste um propósito, avaliar a presença de negros e minorias na produção cinematográfica americana, aliás, na programação deste evento podemos ver produções com negros e minorias, mas ainda de forma reduzida diante dos filmes protagonizados por brancos.

A programação tem 48 páginas com uma foto representativa de cada filme/documentário que você pode acessar aqui.

Nem preciso dizer o quanto a Ava adorou ver seu nome nesta versão que como o original, visa debater a qualidade presencial tanto dos aprovados no teste quanto dos reprovados. E a adaptação/tradução ficou assim…

1. Existem dois ou mais personagens negros com nomes no filme?

2. Eles falam um com o outro?

3. Se eles falam uns com os outros, eles falam sobre algo diferente de brancos?

Esse é o artigo que deu origem ao teste, de 29/jan/2016.

Mas antes de continuar, preciso falar de outros 2 testes que tem a mesma intenção:

Teste Shukla (do autor indiano Nikesh Shukla)

Ele se originou depois do autor ser indagado por um leitor que achava o nome dos indianos em seu conto uma “confusão amorfa de nomes”, que ele poderia ter simplificado para Bob, Steve, Joe… e que foi interessante ver que personagens indianos tem experiências universais, e então o autor Nikesh finaliza o parágrafo falando que é como se houvessem “experiências indianas”.

E a sua sua versão ficou assim…

a) dois personagens principais que são pessoas que de cor (não branco)
b) falam uns com os outros sem
c) mencionar sua raça.

E mais a frente ele fala de alguns filmes e termina o texto dizendo…

“vou seguir silenciosamente aplicando o teste Shukla para tudo o que eu assistir ou ler a partir de agora. Espero que você também.

Alguém pode citar alguns filmes que passam no teste de Shukla?”

Acesse a página dele aqui.

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Teste Dukan (do cineasta negro Asli Dukan)

Já o teste de Dukan é bem diferente, ele se baseia em 5 critérios que inclusive vem usando em seus trabalhos, o primeiro é um conjunto de 3 vídeos intitulado “30 personagens negros significativos em filmes de ficção científica“, no qual ele destacou personagens que, segundo seus critérios são personagens totalmente formados (com nome, história, teor psicológico, narrativa).

Já o segundo trabalho é muuuuito interessante,  um documentário em produção desde 2011 intitulado “Universo Invisivel” onde ele revisita 150 (!!!) anos de produções, incluindo as literárias sobre o negro nos gêneros fantasia, terror, ficção científica e ficção especulativa.

Você pode conferir alguns dados aqui.

E os 5 critérios do seu teste são: (tradução livre)


1. Personagem – o personagem é primário?

2. Ação (?) – O personagem tem a capacidade de fazer suas próprias escolhas?

3. Sobrevivência – O personagem vive até o final do filme?

4. Boglesque (não achei tradução) – O personagem aparece como um estereótipo?

5. Relevância – O personagem tem relevância histórica, política ou social?

Ás vezes me sinto dando voltas quando a questão é discutir racismo, as pessoas muitas vezes não parecem ter interesse algum em entender o que é, só acham, falam de biologia, vão procurar apropriação cultural lá no direito (??) e ignoram deliberadamente a história do mundo, isso quando não dizem que o negro fez parte atuante da escravidão. É tanto achismo e indignamento quando é contrariado que a minha vontade é gravar uma gargalhada e enviar.

O racismo brasileiro é diferente do americano, a nossa versão é extremamente eficiente e joga tudo no campo do preconceito ou do somos todos humanos, mas uns são mais humanos que outros, isso é um fato.

Logo decidi que não adianta falar de filmes e séries racistas brasileiras ou te pedir para citar 20 nomes de atores e atrizes negras que não sejam o Lázaro e a Tais em produções e com protagonismo. Você não vai conseguir.

E ao invés de falar do racismo, prefiro que você leitor descubra o mundo de invisibilidade em que vive, que volte na história brasileira que você ignora, a do mundo que te negaram e veja se isso é não é muito racismo.

Você sabe quem é Cheik Anta Diop?

O mundo inteiro sabe, reverencia o seu legado e você não sabe quem ele é. Ele é só…

o pai do Panafricanismo, precursor da Egiptologia na África e um dos maiores pesquisadores do continente. Responsável pelas pesquisas científicas sobre a negritude do Egito Antigo, que revolucionou a história da África e do mundo.

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É isso, ele derrubou TODAS as teorias que diziam que Egito era branco, ou seja, que o conhecimento produzido ali não era negro.

E você que já ouviu falar de Kant, Hegel, os pensadores gregos na África, o que você acharia se eu te dissesse que eles “roubaram” o nosso legado civilizatório, que o que eles dizem ser deles no nosso currículo não é, e que isso já foi até provado? Ficou sem fala? Pois é…

Leia Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil do autor Kabengele Munanga.

Leia Uma História não Contada do Petrônio Domingues.

Só para dar uma base…

Existe tanta coisa que as pessoas ignoram que chega a ser complicado falar sobre negritude e racismo estrutural, então vamos nos informar com esses materiais gratuitos, apenas alguns para ajudar.

O que você sabe realmente sobre a História do Negro no mundo e os seus conhecimentos? Liste 10 coisinhas… Conseguiu?

Aposto que não, pois você não vai encontrar esse material em nenhuma escola, infelizmente “certas mudanças” que prometiam e muito, não fizeram nem o mínimo, pois o social entrou na frente e ficamos de novo, de fora, então vamos mudar isso?

Essa é a Linha do Tempo produzida pelo Ipeafro/RJ, uma instituição que guarda o acervo de parte da história do negro no Brasil.

Ouviu falar do Teatro Experimental do Negro? Abdias Nascimento? Milton Santos. É disso que eu estou falando…


Racismo Estrutural não é só um ferramenta que nos
impede o acesso, mas aquela que nos
apaga da existência.
– Lu Ain-Zaila.

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Abra e leia, veja absolutamente tudo, mas sentado que é para não cair…

Divulgue a todas e todos, não só a linha do tempo, como o suplemento que dificilmente chegará à alguma escola. Faça o download aqui.

E claro que eu não deixaria faltar o livro que mais gosto no quesito racismo na antiguidade, o Racismo e Sociedade de Carlos Moore, estudioso negro cubano que trabalhou com Cheik Anta Diop e que vive atualmente no Brasil.

Existe o livro na forma impressa.

Download aqui.

E este trata da educação étnico-racial no MEC que nunca foi incorporado realmente ao material dos professores.

Download aqui.

E na literatura brasileira?

É bem tenso, uma vez li uma pergunta no facebook sobre livros, não chegava a 30, incluindo estrangeiros traduzidos, eu até salvei o link e dos brasileiros, a maioria citou O Mulato que na escola sempre era o livro acessível para estudar a obra naturalista brasileira e Jogos Vorazes por conta da Rue, um estereotipo que prefiro nem discutir.

Mas felizmente hoje temos editoras que vem ajudando a mudar esse cenário e ações independentes de autores que como eu que tem rompido barreiras.

E vamos à pergunta..

Brasil 2408 passa com honras no Teste Duvernay?

Sim, ele passa no Duvernay, no Shukla e no Dukan

A primeira Duologia?

Sim, desde que comecei a escrever, não achei nenhuma referência a outro livro nacional, numa imensidão de livros com protagonistas brancos e brancas, eis que a Ena é SIM, A PRIMEIRA PROTAGONISTA NEGRA DE UMA OBRA CONTINUADA – DUOLOGIA – NA LITERATURA DE FICÇÃO NACIONAL. E fico imensamente feliz de tê-la escrito.

E o resultado dos três testes é …

Até o próximo teste…

E leia 4 capítulos online em pdf, mobi e epub para que tenha a chance de sentir que  a representatividade é mais que possível.

Prólogo + 4 capítulos

em pdf – https://goo.gl/J0SJjU

em epub – https://goo.gl/SDA4nm

em mobi – https://goo.gl/7Onhu5.

O artigo que inicia a série – 8 Olhares que vão desnudar o seu livro.

Livro disponível em e-book e físico.

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Nota: Descobri que o Teste Bechdel é amplamente usado nos filmes que possuem personagens femininas na Suécia.

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