Teste Jada: Pelo fim da banalização do estupro e do abuso sistêmico.

Pois é… e lá vamos nós falar de algo muito sério e que tanto no cinema como nos livros vem sendo utilizado como recurso sensual, objeto de fetiche e ferramenta de “fortalecimento” da personagem feminina, o estupro.

E para quem está se perguntando se a Duologia Brasil 2408 tem cena de estupro ou de abuso sistêmico contra mulheres, a resposta é não, pois não faria sentido algum em momento algum. Eu o adicionei à lista pela sua importância em problematizar o assunto e nos fazer pensar os caminhos que tomamos ao produzir algo.

A série – Testes Literários – foi construída com o objetivo de nos fazer avaliar o lugar e a condição de uma personagem, no cinema ou num livro, pois a representatividade posta ali, favorável ou não tem um propósito, encontrar o seu público.

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“Cultura do estupro” é um termo usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens. – ONU Mulheres

#HomensParemACulturaDoEstupro

#EstuproNãoÉCulpaDaVítima

#QueroUmDiaSemEstupro

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Como o teste surgiu?

Através das palavras e pensamentos de Jada Yuan num artigo em 2015 onde ela fala de uma cena de estupro na série Orange Is the New Black e continua a narrar e se perguntar do propósito de outras cenas de estupro em séries e filmes, o ângulo e o propósito com o qual foi construída cada uma.
fonte: A primeira vez que ouvi falar deste teste foi aqui – Nó de Oito.

Já no finalzinho do artigo, a Jada pede para que não esqueçamos dos personagens e dos traumas que vivenciam, pois eles merecem ter a sua história contada.

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“Minha esperança é que, no futuro, possamos ter um Teste de Pennsatucky para estupro, bem como o Teste de Bechdel. O ponto de vista da vítima é mostrado? A cena tem um propósito para existir para o personagem, faz parte do desenvolvimento da trama, avanço? As consequências emocionais são exploradas?”

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E assim surgiu o Teste Jada para avaliar cenas de estupro, com base no teste de Bechdel.

1 – O ponto de vista da vítima é mostrado?

2 – A cena tem um propósito para existir para o personagem, faz parte do desenvolvimento da trama, avanço?

3 – As consequências emocionais são exploradas?

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Parece terrível? É porque é TERRÍVEL e infelizmente soa como normal para muitos roteiristas e diretores que pensam… aquele personagem feminino precisa de motivação, beleza! Vamos estuprá-la!

Antes de qualquer coisa, não estou dizendo que este tipo de violência não deva existir em cena, mas o que pergunto e o teste também é – Qual o propósito? Tem motivo? Qual será o ângulo do fato? O corpo feminino exposto está ali para quê?

E é aí que a coisa fica ruim em muitos filmes e livros.

Não tem leitor PDF, instale o Foxit

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DADOS NO BRASIL

E para pensarmos mais sobre o assunto, ou melhor, a crise em que vivemos, segue uma cartilha que toda a mulher deveria ler e homens também, pois a questão do estupro e da violência contra a mulher no Brasil é séria e geralmente vem de alguém muito próximo, alguém que acredita que você deveria se sentir “agradecida” por ser alvo de um desejo mais que torto, doentio!

Seguem alguns informes e dados sobre a violência contra a mulher no Brasil:

ONU MULHERES

Publicações da ONU MULHERES – em pdf – CLIQUE AQUI.


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PESQUISA DO IPEA

Em metade das ocorrências envolvendo menores, há um histórico de estupros anteriores. Para o diretor do Ipea, “o estudo reflete uma ideologia patriarcal e machista que coloca a mulher como objeto de desejo e propriedade”. Ainda de acordo com a Nota Técnica, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima.”

“O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos.”

“Em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. A pesquisa também apresenta os meses, dias da semana e horários em que os ataques costumam ocorrer, de acordo com o perfil da vítima.”

 

ACESSE : Confira a Nota Técnica Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde

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E nos livros? Que tipo de detalhes podemos considerar como abusivos, machista e/ou sexualizado?

Eu prefiro falar aqui do que vejo/leio costumeiramente em grupos literários e na internet de um modo geral, coisas que autores vem fazendo para chamar a atenção e aumentar o número de downloads, mas que curiosamente só o fazem num espaço que acreditam ser “privado”.

Oi? Em grupos literários com centenas
ou milhares de pessoas?
SIM!

 

Parece loucura, mas não é, a coisa é muito real e temerosa, a banalização do corpo e da violência passa como algo normal, até como um evento que leva ao romance, pois se não tivesse sido estuprada como teria conhecido o seu salvador? O cara, a voz que narra o livro até o fim fazendo do estupro algo menor, tipo “há males que bem para o bem”. Então, na cabeça doentia de quem escreveu isso – Viva! Que bom que ela foi estuprada!

É muito triste ver que a coisa é ferramenta de divulgação, pois na capa da Amazon está tudo certinho, mas na hora da divulgação você é presenteado com uma “bunda em close”, ocupando 40% da imagem ou um cara dando tapas na bunda de outra ou o ato sexual em si, sempre com o corpo “sacro” do homem coberto e o da mulher exposto numa clara mensagem de “ela quer, aí, estou te provando…”. Agora imagine o que está posto, quer dizer, escrito.

E não posso deixar de pedir atenção aos livros adolescentes onde os “príncipes” são agressivos e rudes, mas nada que flores ou um beijão não possam perdoar e então você pensa, é ficção, tudo bem, mas todos os dias aqueles jornais que saem sangue trazem uma mulher morta pelas mãos deste perfil de “príncipe” amplamente cultuado, como se um relacionamento abusivo pudesse ser outra coisa além de abusivo. Isso parece normal para você?

E dos hentais-mangá que normalizam o estupro, o incesto e outras … ai, credo! Eu nem vou falar, porque aquilo é um culto à pedofilia em larga escala, que segue a linha “ela não quer, vai resistir, mas insiste que ela vai gostar e querer repetir”. Eu fico tristemente imaginando o quanto disso vai para a realidade, não só deles, mas na nossa, pois estas temeridades estão entre nós…

Mas há bons programas, tem uma série que gosto muito e trata de vários temas polêmicos que envolvem a violência, especialmente a doméstica e sexual de vários ângulos dos vários tipos de vítimas, a Lei & Ordem – Unidade de Vítimas Especiais com a protagonista Mariska Hargitay, a Olivia Benson que depois de entrar em contato com os crimes e alguns episódios baseados neles, criou a Joyful Heart de apoio às vitimas de violência.

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A melhor formação, hoje assisto pouco…

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Me lembro de 2 episódios marcantes baseados em algumas questões reais: um deles é sobre as provas de estupro perdidas em imensos galpões com infiltração e falta de dinheiro (verbas) para os testes de DNA numa longa fila, correndo contra o tempo já que existe um prazo para a notificação do estupro e a inserção das provas no sistema. O outro é sobre o estupro de uma moça que morre de septicemia (cortada no braço com uma faca velha e imunda) antes do julgamento, mas que grava o seu depoimento e a testemunha é uma mulher africana (não lembro qual país) que fugiu da guerra e está no EUA irregularmente. No julgamento ela conta sobre o estupro como arma de guerra, do qual foi vítima e a promotora pede licença para atuar no Tribunal de Haia, pois descobre que o estupro ainda não é considerado um “crime contra a humanidade”.

Fato verídico: Em 2001, o estupro sistêmico foi finalmente reconhecido como um Crime Contra a Humanidade.

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E um filme atual que posso citar é O Quarto de Jack.

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E então eu finalizo o artigo pedindo encarecidamente aos escritores que não banalizem, romanceiem ou sexualizem a violência e aos leitores que não achem nada disso normal, porque não é normal ou desejável de modo algum.

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E até o próximo teste, o último.

Aproveite o final de semana e leia os 4 capítulos que disponibilizei online em pdf, mobi e epub para que tenha a chance de sentir que  a representatividade é mais que possível.

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Prólogo + 4 capítulos

em pdf – https://goo.gl/J0SJjU

em epub – https://goo.gl/SDA4nm

em mobi – https://goo.gl/7Onhu5.

E não deixe de ler o artigo que inicia a série – 8 Olhares que vão desnudar o seu livro.

Livro disponível em e-book e fisíco.

 

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