Henrietta Lacks: Células, medicina, família, livro, filme e verdade

Henrietta Lacks

Essa é uma história que estava oculta na história, o nome e a vida da mulher negra que revolucionou os estudos da medicina em relação à remédios e vacinas, a indústria ganhou milhões e ainda ganha, mas ela nunca soube, sua família nunca soube.
Enquanto suas células fizeram fortunas de um lado, do outro faltava uma mãe e recursos aos seus cinco filhos, mas não só isso, faltava a sua identidade, quem era, como viveu, pois falar em câncer não era bom e assim não falavam dela. Tudo isso de impactou a vida do pai David (Day) e especialmente de seus filhos Joseph (Joe/Zakariyya), David Jr. (Sonny), Lawrence, Deborah (Dale) e Elsie, mas o destino de algum modo viria a mudar isso 60 anos depois, contando não só como surgiram as células HeLa, mas o que aconteceu com sua família.

Eu vim a conhecer a história deste livro lançado em 2009 através de um filme que já mencionei estar passando na HBO, a Vida Imortal de Henrietta Lacks, estrelado pela Oprah Winfrey no papel de Deborah Lacks que junto a uma repórter freelancer Rebecca, obcecada por saber da família Lacks e das células HeLa desde os 16 anos. Elas embarcam num resgate da história de Henrietta e perpassam a vida de todos, especialmente pelo sofrimento de Elsie, o caçula Joe e ela mesma, Deborah.

O curto vídeo acima diz como Rebecca veio a saber das células HeLa, como aquilo a impactou e como por décadas ele manteve em mente a vontade de conhecer e resgatar a história de Henrietta Lacks, nome ocultado atrás do Helen Lane, falso, mas um evento de debate sobre as células HeLa e como elas se sobrepunham ou “contaminavam” culturas de outras células veio a ser o estopim para o resgate de sua história e conhecimento da família que começou a ser procurada por alguns repórteres ávidos por saber como aconteceu, foi desta forma que a família veio a entender o quanto sua mãe tinha enriquecido o mundo sem qualquer retorno aos seus filhos, nem seguro-saúde obrigatório, nem um reconhecimento, alguma ajuda, nada de nada, mas para entender melhor só lendo o livro, pois lá descobri que todos os filhos tinham algum nível de surdez.

O livro não possui uma narrativa literária, ele é um registro documental com as falas registradas das pessoas e parentes de Henrietta. Nele nos aprofundamos em suas vidas, sofrimentos e ficamos a par de alguns detalhes que o filme não trás, mas que registra o mais importante, como resgatar a existência de Henrietta trás paz aos seus filhos em algum nível e explica parte de seus problemas, para além da família que ficou desestruturada com a falta da mãe e omissão do pai (mais visível no livro).

Admito que não li o livro todo, mas o folheei de cabo a rabo, li alguns capítulos, pois é muita coisa, muita informação e eu foquei na trajetória dos filhos, deixando de lado a questão dos Lacks negros, Lacks brancos, a questão das terras, informações mais técnicas das células, mas importante para qualquer um de nós sabermos, o debate do uso das células e dos filhos dos filhos de Henrietta.

Eu até li alguma coisa, mas me foquei na questão do conhecimento, pois não se trata apenas da história de uma família, se trata da história negra, de mais uma resgatada da ocultação e por que não dizer do racismo, pois acreditem, há quem queira mudar o nome das células para homenagear o homem que as roubou, fez testes em centenas de pessoas sem dizer o que injetava, e fez exames e sabe-se lá que testes nos filhos de Henrietta dizendo que era para saber se poderiam ter câncer, se aproveitando de um pai (Day) semianalfabeto, sem posses (o tabaco era um mercado em declínio) e com cinco filhos para criar, dependente dos poucos e nem todas boas pessoas ao seu redor, logo dá para imaginar que a questão é complicada.

a história é a nossa terra e
não podemos crescer
e florescer sem ela.

No filme alguns fatos estão na ordem inversa, mas não mudam o que aconteceu, o principal está lá, mas senti falta de alguns detalhes como o que Deborah desiste da assistência em enfermagem para trabalhar como faxineira e cozinheira, pois não tendo dinheiro para os remédios e estudar ao mesmo tempo, resolve focar na educação dos netos, mas filme tem limite de tempo e para se aprofundar e ter mais detalhes só lendo o livro, uma ótima leitura que ainda vou resgatar, mas só após a Bienal, pois tenho muito trabalho até lá com a minha Duologia Brasil 2408.

O filme retrata bem a situação emocional familiar, especialmente dos filhos mais novos Deborah e Joseph (Joe/Zakariyya) que foram os que mais sofreram.
O Joe nasceu depois de Henrietta já ter contado às primas que acreditava ter um caroço que doía, na verdade quando Deborah nasceu ela já reclamava de dores.

O filme começa dando um passeio sobre a importância das células e como seu nome foi ocultado, mostrando dados da época e como permitiram revolucionar a medicina e daí passamos à história em si, ao contato com os irmãos e depois com Deborah, uma mulher em busca de respostas e com problemas (paranoia, esquizofrenia, etc.).
E olha que coisa, a história de Henrietta atravessou a das mulheres negras da NASA quando foi lançada num foguete no espaço.

E neste artigo são citados vários outros momentos em que negros eram usados em experiências de todo o tipo (em inglês)


https://blackmattersus.com/32829-henrietta-lacks-and-other-unwilling-research-subjects/

E o resgate da breve existência de Elsie é traumático, ela tinha epilepsia e algum tipo de retardo mental, mas não fica claro já que ela é deixada num hospital para “loucos de cor” e lá usada como tantos outros para experimentos como o de fotografias do cérebro, tipo raio-X, mas o que faziam era desumano, retiravam o liquido raquidiano do crânio e colocavam ar ou hélio para fazerem fotos nítidas. A recuperação durava até 3 meses junto com dores de cabeça, vômitos, convulsões, o que parou no mesmo ano de sua morte e um outro diretor assumir, enviando pessoas que não deveriam estar ali embora, algo já retratado em outros filmes e histórias, fora do contexto é louco, interna e esquece.

Ver o que aconteceu à sua família, os abusos sobre Sonny, Deborah e Joe cometidas por Ethel e Lawrence, supostos amigos são de partir o coração, sem motivo algum, só maldade e desprezo.
Não dá para separar o que sentimos de angustiante na vida deles, pois está lá na mesma proporção da busca pela vida de Henrietta.

O que eu consegui perceber e entender sobre a Deborah e sua família, a questão racial negra de um modo geral é que a história precisa ser contada, independente do quanto seja dolorosa e cause sofrimento.

Isso é importante para não se esquecer e não deixar que isto te consuma por dentro, mas também para nos guiar para um futuro diferente onde o sofrimento tenha explicação e o nosso existir um motivo. Encarar é preciso.

Não podemos mudar a história, mas em hipótese alguma devemos aceitar a barbaridade da qual todos fomos vítimas de algum modo, o racismo, a invisibilidade história, a tentativa de nos fazer parecer nada perante a história da humanidade e isso não é verdade. Estivemos nela sempre, reagimos, lutamos, morremos, voltamos, ganhamos, perdemos e continuamos aqui para mais um round e quantos forem precisos.

SANKOFA
Nunca é trade para voltar e apanhar o que ficou
para atrás.

Eu gosto muito dos provérbios Adinkra, eles não são apenas frases, fazem parte de quem somos. Eles são pensamentos e provérbios que falam muito de uma nação inteira e há muito mais para se saber e conhecer sobre a África e seus filhos na Diáspora (fora da África) como é a história de Henrietta Lacks e tantos outros de nós que precisam se tornar narrativas não só as bibliográficas, mas também as ficcionais trazendo um pouco de quem nós somos aqui e ali, num fragmento de informação núbia, asante, angolana, do Benin. Somos todas as partes deste continente e devemos manter isso em nós para que não sejamos tomados por um vazio existencial onde nada negro é bom e se você ouviu isso por aí é mentira. Fizemos muito, fazemos e faremos muito mais, mas precisamos de raízes, a história é a nossa terra e não podemos crescer e florescer sem ela.

E existe uma linha do tempo de eventos (em inglês)
https://www.timetoast.com/timelines/hela-important-events-timeline

Alguns dados:
– O livro levou 10 anos para ficar pronto
– Deborah morreu meses antes do lançamento.
– Em 2010 Rebecca criou o fundo Henrietta Lacks de apoio à família.
– O livro ficou 6 anos na lista de bestseller do New York Times
– Clover não existe mais, em 2000 a cidade estava lá, pequenina, mas em 2009 foi consumida.

E até 14/julho com outra dica literária.

 

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