Afrofuturismo: O herói e a heroína negra tem raízes (parte 2 de 3)

Raízes…

Isso é algo muito importante quando se trata de representatividade e positivar ou negativar um imaginário.
A questão do herói ou heroína de rosto negro precisa ter passado para apresentar um presente e falar de um futuro. No afrofuturismo entramos numa nova dimensão, onde temos como obrigação construir um novo referencial e caminho para o nosso personagem.

Imaginei as pernas do Wadei (Duologia Brasil 2408) exatamente assim.

Mas isso não é fácil e nem poderia diante do que sabemos ser a nossa história no mundo, ao qual só temos acesso indo atrás, saindo do lugar comum da história que nos contam na escola.

Desde cedo aprendemos que somos descendentes de escravos e não descendentes de povos africanos, negros que foram escravizados.

Há todo um processo de ressignificação do corpo negro, da beleza negra, da história negra, do ser negro/negra de um modo geral que precisa ser encarado, abraçado e colocado em palavras ditas, escritas, musicadas, não importa o meio artístico escolhido, a identidade negra precisa se rever.

Essa é a galeria das similaridades…

Nas últimas décadas conseguimos resgatar muita coisa: conteúdo, história, estética, o lugar da fala, mas ainda temos muito a percorrer até que seja natural uma criança abrir um livro e se encontrar lá como povo e não como objeto ou algo que não é humano. Isso fere emocionalmente e faz com que muitas vezes acreditemos que ser negro é ruim, que ter traços ou portar algum acessório que nos torne “mais negro” não seja de bom tom, não devemos chamar a atenção.

Mas o que isso tem a ver com Afrofuturismo? Tudo, na verdade tem a ver com o referencial de ser negro para além de um conceito, estilo, época ou meio de expressão.

Ser negro tem a ver com vir de um lugar, África e isso implica em sabermos de onde ou dos vários ondes, reconhecer ou ver como natural o resgate de um traço africano negro, assim como é visto o europeu, o asiático, o nórdico, o grego e eu insisto nisso porque a narrativa falada e escrita através dos tempos tem um peso inacreditável sobre a nossa herança cultural, pois enquanto éramos usados para gerar fortunas para povos brancos, a narrativa deles se fortalecia com seus heróis, costumes, nomes, lugares, isso foi fortalecido por séculos na contramão da perda de nossos nomes, costumes, histórias e isso nos prejudicou consideravelmente, mas não desaparecemos, a África está lá com muita coisa a nos dizer.

Um bom exemplo é a mitologia africana

Orixás não são mitos e sim figuras religiosas, mas há histórias sobre eles. É horrível vê-los de tanguinha, desrespeitados. É só pensar no sincretismo religioso, trace um paralelo um orixá de tanguinha, um santo idem? Não dá…

Cada país e/ou nação tem um legado e muita coisa para contar e detalhe… é muita, mas muita mitologia. Essa lista está incompleta, mas dá para ter uma noção.

=> Mitologia Alur
=> Mitologia Akampa
=> Mitologia Akan
=> Mitologia Ashanti
=> Mitologia Baganda
=> Mitologia Bambara
=> Mitologia Banyarwanda
=> Mitologia Boshongo
=> Mitologia Dahomey
=> Mitologia Dinka
=> Mitologia Efik
=> Mitologia Ibo
=> Mitologia Isoko
=> Mitologia Kabyle
=> Mitologia Khoikhoi
=> Mitologia Kongo
=> Mitologia Kurumba
=> Mitologia Lotuko
=> Mitologia Lugbara
=> Mitologia Maasai
=> Mitologia Ngombe
=> Mitlogia Pigmeos
=> Mitologia Shaona
=> Mitologia Shilluk
=> Mitologia Songye
=> Mitologia Tumbuka
=> Mitologia Yoruba
=> Mitologia Zulu
Fonte : Mitologias

Na lista acima não entrou a egípcia, mas resolvi adiciona-la aqui através desta galeria onde trago mescladas fotos das paredes de pirâmides e povos africanos e me diz se não é parecido demais.

Foco nas pessoas com rosto de animais nas paredes e….

nas populações atuais com suas máscaras.

E não é cada uma de um país, tem a ver com grupo, tribos. Temos que ter em mente que a divisão da África não foi feita nos termos dos povos, a escravidão e a colonização atravessaram o caminho do desenvolvimento do continente inteiro por séculos.
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E isso me fez lembrar também que temos uma boa lista de monstros africanos. Já pensou nisso? Temos vampiros (Adze, folclore Ewe, Togo/Ghana) e muitos outros (seculares) e preciso admitir, começo a duvidar de certas histórias tidas como europeias e etc. pois é muito igual, demais para se deixar passar sem um olhar mais atento.

Eu me surpreendi com muita coisa que sequer imaginava, isso nos mostra como o legado mítico africano é imenso, a história é rica e deve ser conhecida.

Pois é… para te explicar o Afrofuturismo, precisei viajar ao passado e mostrar o presente para dizer que agora sim, com conhecimento uma boa estória pode ser contada.

E se Angola, por exemplo, num futuro fosse assim…
                                        …
Interessante imaginar um país ou talvez você possa lhe dar um outro nome. Fique a vontade.

Talvez moremos num planeta diferente e adaptações corporais foram necessárias para uma melhor adaptação…

                                        …
E que tal jovens super descolados do bairro Kamalasi na África do Sul em 2237 ou de Sampa, Brasil ou em Angola-3. Tudo é possível.

A maioria destas fotos que usei são do Pinterest e americanas. Dá para notar nelas detalhes culturais nas roupas, cabelo, corpo e acessórios. Tudo isso faz parte da inspiração para se apresentar um personagem. Trace um comparativo com uma história futurista japonesa, a cultura estará lá em meio a todo o neon.

E onde ficam as narrativas do presente e do passado? Bem… elas precisam ser contadas em meio a todo o horror que sabemos que isso significa, falar de escravidão, racismo. Precisamos descrever esses momentos, contar a resistência em meio a isso, pois é a única maneira de respeitarmos os mortos na travessia dos mares e os sobreviventes jogados numa vida de terror, mas cá estamos, filhos, netos e bisnetos, mesmo que eles estejam perdidos para nós, sem nome, documentos, sobrenomes, não importa, precisamos registrar esses momentos e mais uma vez podemos traçar um paralelo com a holocausto vivido pelos judeus, eles tem um pacto existencial de sempre contar e lembrar os mortos, pois é a única maneira de honrá-los e o que temos? Livros, filmes e museus que descrevem o terror que passaram sem diminuí-lo, pois assim mantém firme o respeito pelos seus. O mesmo devemos fazer e já começamos, contar a escravidão, seus horror em cada chibatada, a morte por tristeza, os levantes, nada pode ser esquecido, nenhum negro ou negra, pois eles somos nós a cada vez que vemos e sentimos como se fosse em nossa pele. Isso se chama pertencimento racial, ele é importante para explicar a nossa história, psique e por isso narrativas que elucidem esse sentimento a quem não entende o que é esse estranhamento são importantes. A literatura pode ser um lugar de cura, resgate e compreensão de quem somos e do que vivemos.
Vale um artigo mais a frente.

E que tal um microconto de improviso, só me baseando na imagem abaixo…Finalmente seu turno especial de 12 horas acabou. Kiwili voou até os limites da Aliança Democrática do Congo, que há um século atrás, em 2069 viveu uma revolução, agora nos termos das várias representações dentro do país. Ao todo são 10 nações amigas que cooperam entre si e experimentam pela primeira vez a conexão de viagem espacial para Terra-2.
Esse será o primeiro pouso de passageiros dentro da área da Aliança em seu próprio aeroespacial. O povo está em festa e não vê a hora de entrar no circuito espacial intercontinental.
O sonho de Kiwili é entrar para a Frota Estelar dos Países Africanos, o exame será em 2 dias e ela deve estar impecável, o que significa além do uniforme, que as suas pinturas corporais identificando a nação da qual faz parte devem estar impecáveis no dia do exame de admissão.

Uau, ficou bonito esse miniconto…

Construir um mundo afrofuturista de início não é fácil. Foi um desafio ambientar a minha duologia num Brasil em 2408. Na época nem conhecia o Afrofuturismo, mas eu sabia que queria contar uma boa estória com algo futurista e com características com as quais me reconhecesse e causassem um pertencimento racial positivado. Sendo assim, recorri ao que sabia, o que conhecia de cultura africana, mundo, política, humanidade e enfim foi fluindo.

E não deixe de ler os primeiros 10 capítulos do livro disponíveis aqui no site, na aba Capítulos.

Hoje tenho muitas possibilidades na cabeça e no próximo post, dia 17/jun, o último da série Afrofuturismo falarei sobre a Duologia Brasil 2408, o que fiz de concreto em termos de cultura,  diversidade, psique positivada e apresentarei alguns dos contos que vou disponibilizar gratuitamente para leitura.

E para autoras e autores, deixarei dois exercícios de escrita criativa.

Até logo,

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