Kindred: Sua ficção e sua realidade

Quando ouvi falar a primeira vez deste livro, lançado em 1979 da Octavia achei ele curioso, pois as traduções que consegui fazer falavam de seu uso em estudos na escolas, até comentários em sites falavam sobre ele, pessoas que o leram e comecei a pensar em seu impacto e importância para ocupar este lugar.

E para esclarecimento, só escrevo artigos com explicações dos fatos, não sigo a regra dos 3 minutos da internet, pois meu objetivo é instrução, logo é TEXTÃO.

Seu mesclado entre ficção científica ao falar de viagem no tempo e a sua parte realista de um Estados Unidos ainda inexistente, segregado, e pior, ambientada no sul escravocrata já nos remete a um lugar perigoso, onde “frutas estranhas” sempre podiam ser encontradas em árvores, sempre.

De 1877 a 1950, mais de 4 mil negros e negras foram linchados, enforcados e mortos no sul dos Estados Unidos para que lembrassem “o seu lugar”, segundo registros oficiais.

Para quem pensa que a informação acima nada tem a ver com o livro, informo que antes de falar dele, já que estamos no Brasil, é importante tirar as vendas dos olhos de quem acredita que este país não é racista, ele é e muito e se você foge do assunto escravidão, não o enfrenta como o que ele foi, então você ajuda a perpetrar o seu horror, tirando o direito destas pessoas a um mínimo de respeito da sua parte, isso o faz um/uma racista também, e se deseja mudar isso, abra os olhos e veja a verdade, não a ignore mais.

 

Fizeram uma versão HQ, mas acho que tira o peso das palavras e da escrita.

 

Dana é negra e seu marido Kevin é branco nos EUA de 1976, ambos são escritores buscando o seu lugar e lidando com a dor do racismo latente. Os tios de Dana não querem conhecer Kevin e a irmã de Kevin odeia Dana e também não quer vê-la de modo algum. Esses fatos são interessantes para pensar a viagem no tempo do livro que acontece com Dana, transportada a um passado onde precisa manter vivo um dos seus ancestrais, inicialmente um menino branco sulista chamado Rufus.

Ao se deparar com este fato, ela precisa lidar também com a realidade da escravidão e a verdade que a sua existência carrega, mas não seria apenas a dela, ou na verdade, o livro fala de cada negro e negra sob a face desta terra?

Pertencimento racial é aquele sentimento, sensação inexplicável que te faz sentir imediatamente, sem que entenda o motivo, o lugar de um outro indivíduo de seu grupo racial,  aquela sensação está lá e te invade a existência como algo latente. É como se você soubesse que a única coisa que te impediu de viver aquilo ou morrer ali é o tempo e o espaço.

E aqui entra Octavia com seu Kindred, nos fazendo sentir esse transporte no tempo e no espaço.

Os judeus sempre lembram o holocausto, escrevem sobre ele, fazem filmes, pois sabem que vivem numa realidade, onde o tempo e o espaço é o limiar. Lembrar para jamais esquecer os sobreviventes e aqueles que morreram é respeitá-los e relembrar quem são e o que fizeram sob um ódio sem explicação que se baseia numa superioridade inexistente e estúpida, mas eficiente para angariar gente em busca de poder, a qualquer custo.

No caso da população negra é mais complexo manter e fortalecer este pensamento, pois somos bilhões e fomos usurpados por séculos, roubados de tantas maneiras que beira o surreal, mas foi e é verdade, somos um grupo racial gigantesco diante de uma máquina racial branca que se coloca em lugar de protagonismo sempre que pode, nos mínimos detalhes, sempre com artimanhas para empurrar nossa produção e existência física pro canto, isso quando não a inviabiliza de fato. Os “democratas raciais” vão dizer que não, mas é só olhar para o acesso à produção, IDH e tantos outros fatores que lá está, o racismo latente e a luta de cada negro/negra consciente é diária.

Para que entendam, sugiro o livro do Petrônio Domingues, Uma História Não contada – negro, racismo e branqueamento em São Paulo na pós-abolição (Editora Senac, SP)

Leia o Prefácio – aqui.

 

Muita gente ignora, por exemplo, que no Brasil muitos de nossos avôs e avós quando jovens não pisavam na parte de dentro de praças, num acordo tácito, o interior delas era para as pessoas brancas e os arredores para pessoas negras. Vi o espanto no rosto de várias pessoas quando quando estive na UFMG (ainda estudante da UERJ, apresentei um trabalho lá) num evento do NEAB de lá. Quando esse fato veio à tona na voz de uma senhora e corroborado por outras diante da alegria de estar viva para ver negros e negras na universidade, falando e combatendo o racismo.

Já prestou atenção, caso tenha tal documento, que seu avôs e avós tinham pais sem sobrenome? Isso quando tinham algum nome para se lembrar? Percebeu que um dos sobrenomes surgiu do nada, não existia antes?

E para quem não conhece o que significa este termo – frutas estranhas – que se transformou também em música imortalizada na voz de Billie Holiday, eu explico, originalmente é um poema que foi escrito por um judeu e que após alguns anos o apresentou em forma de música à Billie que no início teve medo, pois a época era 1930, o racismo e o linchamento como diversão eram algo real, dolorido e como cantar uma música como esta, mas ela a sentiu e lutou para que fosse gravada, desagradando a muitos em ambos os lados.

Existe um livro que fala desta música, na verdade um poema que virou música e um clamor contra o que acontecia especialmente ao negros do sul. A escravidão não existir para um negro residente ali, não significava nada, ele ainda poderia morrer tão simplesmente como como na época da escravidão.

Leia no site do Géledes, artigo sobre o livro lançado e mais detalhes:  A história de Strange Fruit. 

LETRA
Árvores do sul produzem uma fruta estranha,
Sangue nas folhas e sangue nas raízes,
Corpos negros balançando na brisa do sul,
Frutas estranhas penduradas nos álamos.

Cena pastoril do valente sul,
Os olhos inchados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresca,
Então o repentino cheiro de carne queimando.

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores derrubarem,
Aqui está a estranha e amarga colheita.

 


 “democracia racial”, um termo nefasto que todo negro ou negra, branco ou branca que pensa realmente que precisamos romper o silenciamento das desigualdades raciais perpetuadas, precisa refutar sempre por um simples motivo: ela não é real, não existe e este termo serve para escamotear a verdade brasileira que não precisa ser muito escavada para vir à tona.

Relembrando, leia um breve : Unesco e o estudo do racismo no Brasil 

 

Passei por tantos assuntos subjetivos dentro do livro para que compreenda ou se aproxime da percepção de leitura que o livro trás. Kindred fala de uma mulher negra que enfrenta a realidade do seu passado, e que não pode mudá-lo. Ela o vive, discute internamente e se martiriza pelo o que pode estar fazendo a outros destinos.

E claro, não podemos esquecer de Kevin, seu marido branco que testemunha o que ela sofre em cada viagem, e num dado momento também vive o seu lugar “branco” na história de Dana, isso o afeta e o muda irremediavelmente.

Kindred tem muito a ver com Raízes que conta a vida dos descendentes de Kunta Kinte, pois sofremos ao ver os terríveis açoitamentos, crimes, separações e outros horrores, mas apagar isso de nossas lembranças é um erro, pois faz parte da história de cada um de nós e explica o que sentimos quando mais ninguém entende.

A escravidão é contada de uma forma absolutamente errada nas escolas, apenas como um termo e lugar de subserviência, e não foi assim, nós negros não estávamos lá, sozinhos, brancos tiveram o seu papel na perpetuação disso, geração após geração passando suas “peças”. A escravidão foi um lugar de morte em vida e isso precisa ser posto em palavras, exatamente como Kindred apresenta com toda a sua dor e trauma. Quando se apaga isso, perpetua-se a geração do “mimimi” e se dificulta o estudo do racismo (democracia racial) como lugar de poder e todos que compactuaram para torná-la algo normal, comum.

 

Não podemos esquecer o lugar da religião, o catolicismo neste episódio da história, o vemos em Kindred, Raízes, O Nascimento de uma nação, e claro, ele esteve aqui também.

Vale lembrar que a história dos negros é imensa, antes da escravidão, durante e depois, resistimos e fizemos muito, mas precisa haver o resgate, o contar para que não se perca mais negros e negras nos becos da história.

A minha Duologia Brasil 2408 tem esse papel, ela fala do futuro, de um país diferente, onde uma heroína negra existe, ela têm história, família, raízes, e se a estória de uma pessoa branca é vista naturalmente como universal e é lida e tida nesses termos, a de Ena deve ser vista assim também, mas sem esquecer a realidade, que estamos longe de uma igualdade de fato, longe mesmo…

O livro lembra Cheik Anta Diop, tão importante quanto Einstein na história do mundo, mas você ouve falar? E também conhecemos os símbolos Adinkra. E é importante dizer, o livro trás realmente uma sociedade mista, o que não significa apagar traços e legados, mas mantê-los e respeitá-los

 

Mas voltando ao livro e agora para finalizar, vale dizer que sua leitura é necessária para “sentir” a escravidão e compreender essa época como o maior ingrediente do racismo direto ou escamoteado. Kindred é uma lição sobre o passado para mudar o presente e o futuro, se não esquecermos a verdade.

 

Leiam Kindred como uma lição de vida.

 

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