Esse é um considerado autor de ficção científica, mas qualquer mulher que leia alguns de seus contos vai imediatamente perceber algo muito estranho.

E para que não sobre dúvidas…

O texto Eva e o Fuzil diz respeito à transcrição de uma carta de Berilo Neves endereçada a um general brasileiro, veiculada no fascículo de número 6 da Revista Hiléia do CMPA, em 1933. Segundo o redator da transcrição, o conteúdo original desse documento teria sido publicado na Revista da Semana, um periódico de variedades porém com fortes alusões
políticas, fundado em 1900 por Álvaro de Tefé no Rio de Janeiro e extinto em 1959.

EVA E O FUZIL

MEU GENERAL:
Estou muito satisfeito com V. Exª. Mais do que satisfeito: positivamente encantado. Há vários anos que me venho batendo por este princípio de equidade que vossa V. Exª tão bem explanou, há dias, em entrevista a um dos nossos jornais: se as mulheres querem os nossos direitos, pois que cumpram, também, os nossos deveres! Muito bem, General!
O que é absurdo é que elas se sentem nas poltronas da câmara e nós andemos de fuzil ao ombro, subindo e descendo ladeiras por este Brasil de Nosso Senhor Jesus Cristo afóra! O que é injusto é que se metam nas nossas calças e nos esqueçam em casa, pregando botões em cuecas e serzinho meias, cansada d ser meias… O que é clamoroso é que ditem as leis e os regulamentos, e nos deixam na coxinha descascando batatas e fazendo a barba aos camarões!
O serviço militar não deshonra nem atrapalha a marcha de nenhuma saia neste mundo. Na Grecia, as damas (que eram bem mais bonitas que as de hoje) ajudavam os homens a defender a pátria, e o faziam com tal heroísmo que era melhor morrer nas mãos de um preto na Libia do que nas garras de uma dessas formosuras de espada e escudo! Na guerra do Paraguaí, muitas foram as mulheres guaranís que abriram a barriga dos nossos patrícios — não para lhes curar o apêndice mas para lhes extraír a vida…
Na Russia atual (país onde as mulheres são bem geitosas…) elas policiam as cidades, dirigem os trens e viaturas militares, dão guarda ás repartições publicas e nem por isso deixam de cumprir, com suficiencia, a sua missão de mulheres e de dar filhos aos Soviets…
No Brasil, algumas damas metidas a homens têm feito tal barulho que é justo se lhes prove agora a capacidade, pondo-lhes ás costas os 20 quilos do nosso equipamento regulamentar e mais a Historia do Brasil de Rocha Pombo de sobre-carga…
Se o sexo já não é fraco, se não foi feito para ouvir declarações de amor e suspirar no velho balcão sentimental da langida Julieta – então deixemo-nos de salameques ridiculos e tratemo- lo como nosso egual e nosso socio. De duas, uma: ou a Mulher é a parte melhor da Humanidade, General é o termo designado ao oficial militar que atingiu as patentes mais elevadas na hierarquia das Forças Armadas. e nesse caso deve permanecer no altar onde a colocaram 19 seculos de poesia e romantismo, ou é, apenas, um homem sem barbas, e então tem que ir para o quartel e marchar direitinho como uma praça bem disciplinada e bem nutrida!
E, assim sendo, meu General, nada de considerações com elas. Se não fizerem a continencia devida aos superiores, repreensão e cadeia. Se faltarem ao serviço, prisão celular por 4 dias a pão e agua (sem cigarros). Se responderem com maus modos aos sargento de dia, tempo dobrado de sentinela á porta do quartel, sem direito a piscarem os olhos aos transeuntes bem vestidos… Nada de contemplações nem de branduras com essa especie de praças de pret
Senão, lá se vai por aguas abaixo a disciplina e nunca mais se poderá ter em boa fórma uma companhia de combate ou um simples pelotão de reconhecimento. Mulher é cousa do Diabo.
Que o diga o nosso avô Adão, que perdeu, por causa de uma certa Eva, aquela esplendida sinecura do Paraiso! Que o digam os milhões de desgraçados (assassinos, peculatarios, suicidas,
malucos, etc…) que tiveram a desgraça de encontrar, na vida, uma mulher sem juizo ou sem disciplina…
Cadeia com elas, General, e que não se lhes dê posto excedente ao de cabo de esquadra – pois que elas não darão conta de encargo superior ou de função mais alta. Cadeia com elas, General, pois V. Exª bem sabe que mulher é como passarinho: só canta bem na gaiola! Solta, ou se perde na floresta dos erros e malicias do mundo, ou acaba roubando, na vizinhança, o alpiste da gaiola alheia…
O serviço militar tem, de resto, para as damas, vantagens encantadoras… Dar-lhes-á saude, pela pratica de exercicios e habito de acordar cedo e dormir a hora certa. Evitará que engordem, pois (sobretudo se servirem na infantaria) terão que fazer longos raids a pé, vendo por um oculos o ônibus da Light ou a baratinha do namorado. Habitua-las-á, aos poucos (que isso é tarefa para longos seculos de quartel) a obedecer a quem de direito, fazendo as cousas sem resmungar e renunciando aos seus desejos sem fazer choradeira e “telefonar para mamãe…”. Conserva-las- á, enfim, atentas ao regulamento, sabendo que a vida só é nobre quando a gente esquece os direitos proprios em favor e beneficio dos direitos da coletividade. Aposto que, no dia em que as mulheres só puderem casar quando providas da caderneta de reservista, não só teremos um exercito formidável em numero, como umas esposas magnificas  em qualidade. Eu irei, pelo menos, para a porta dos quarteis, a ver quando sai uma praça de olhos romanticos, cansada de marchar e anciosa por querer bem. Indagarei do espirito disciplinador do
comandante do corpo em que ela serviu e, se se tratar de um chefe ilustre como V. Exª, irei para o casamento em uniforme de gala, como se fosse para uma revista no campo de S. Cristovam…
Mulher que não possua, no mundo, a quem obedecer é mulher que nem ao Diabo convém. Ora, só o quartel nos dá esse espirito de subordinação honesta, tão indispensavel aos homens como aos cachorros, aos soldados na tropa como aos frades no convento. Obedecer é uma das grandes virtudes teologais e não foi á tôa que os jesuitas a inscreveram como o principio basico da sua ordem e da sua existencia.
A caserna é uma escola de maridos excelentes; porque não o haverá de ser de mães ótimas?
Alem disso, muitas damas têm (embora não o confessem) uma grande vocação para sargenteantes. Quem nunca viu uma sogra dispôr as pessoas em casa, e pôr cada uma no seu lugar? Quem nunca assistiu a uma tia velha arranjar as cousas de modo a acabar tudo em  casamento? Já disse que as damas não devem ir além de cabo de esquadra (porque com elas o regulamento tem que ser apertado e severo), mas a verdade é que o habito de sargentear é muito comum entre as que passam dos 30 e começam a ver claro nas fileiras, e no mundo…
Sabe V. Exª, meu General, que Eva (como diz o Antonio Torres) sempre foi doidinha por Marte.
Uma farda (mesmo de mata-mosquito) sempre valeu mais para ela do que o mais vistoso fraque ou o mais elegante jaquetão. Chegou a hora de mostrar que este béguin não é fingido.
Demos-lhe, pois, uma calça e a tunica. Ageitemos-lhe a “culotte”. Afivelemos-lhe bem o cinto e as pederneiras. Cuidado com o sabre que não fique a bater-lhe, incomodamente, nos quadris.
Ponhamos-lhe, agora, um quepe na cabeça. E nunca, como hoje, poderemos cantar, com mais profunda verdade, a canção da nossa meninice:
– Marcha, soldado, cabeça de papelão…

Permita V. Exª, sr. General, que lhe faça a continencia regulamentar o seu admirador muito disciplinado e atento.
Berilo Neves.

FONTE:  https://www.ucs.br/site/midia/arquivos/anais-volII-rede-sul.pdf

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