CONEXÃO

— Ah não… isso são horas – resmunguei ao universo assim que olhei para o relógio, quatro da manhã em ponto. Tenho o costume de desligar o celular, logo o que brilhava no escuro vinha da saleta, quis arrebentá-lo com algo pesado sem a necessidade de me levantar, mas preferi esquecê-lo, pois salvaria a mensagem e virei para o lado.

— Mas o que é isso! – me assustei, agora era na porta, esmurravam e gritavam o meu nome.

— Dra. Adimu! Eles estão aqui! Eles estão aqui!

Levantei sobressaltada, pois a voz parece ser da minha assistente e também percebi luzes que focavam minha janela. Vi um helicóptero e seu áudio me mandava abrir a porta e estar pronta em 10 minutos para “retirada”, um modo sutil de dizer… vai sair daí do jeito que estiver vestida. Aquela intimação me acordou em definitivo, corri para abrir sem demora e guardas tomaram a sala com lanternas, depois ascenderam as luzes e então vi que realmente era Cecile, mas de pijama e me lembrei do prazo, logo sairia dali arrastada vestindo a mesma moda.

— Já vou me trocar, preciso do meu allpad e anotações – respondi a ninguém em específico para assim ganhar tempo e impedir que minha assistente e eu fôssemos colocadas diante da Aliança dos Países para o Desenvolvimento Espacial naqueles trajes. Vesti uma calça e blusa decentes e disse a ela para achar algo no armário rapidamente. Foi o tempo de calçar uma sapatilha e pronto. Fomos conduzidas sem a menor cerimônia e sob olhares curiosos da vizinhança ao helicóptero.

— A mensagem voltou doutora! Eles querem fazer contato! – me disse Cecile baixinho assim que fecharam a porta.

— Que mensagem?

— A da cápsula, aquela, a ideia foi sua …

— Aquela… de 20 anos atrás? Tem certeza? – insisti e Cecile me confirmou ao assentir com a cabeça.  Eu não podia acreditar naquilo, uma impossibilidade física e matemática sem precedentes, assim como um piloto mudo sem confirmação de rota, um comportamento anormal.

— Ei, para onde estamos indo? – perguntei a ele que me informou secamente. — Sem registros na caixa preta.

— Dra. Adimu, me deram uma única instrução quando me tiraram de casa às pressas: te levar ao local do pouso.

— Do pouso do quê? Da sonda? – indaguei.

— Não, da mensagem. Não sei onde, mas a instrução que recebi foi esta. Te dizer que a mensagem pousou.

Aquilo me surpreendeu ao máximo, parecia algo extremamente surreal, mas estava acontecendo e estar indo ao encontro de algo que sequer ousava supor me fez resgatar na memória o fato desencadeador daquele alvoroço sem precedentes.

Na época, eu era uma novata e culminou de estarmos comemorando os avanços alcançados até ali: modernizamos a capacidade de comunicação fora do planeta, assim como a ida ao espaço para viagens. Claro que não conseguimos nada parecido com as ficções do cinema, mas viajar no estilo de um “cruzeiro marítimo”, algo em torno de três dias a uma semana era mais que incrível, era simplesmente espetacular e necessário, mas que fique claro, ainda não moramos em Marte ou em qualquer outro exoplaneta, mas se quiser passar alguns dias em nossas colônias turísticas espaciais, temos pacotes irresistíveis e caros, pois alguém precisa pagar a conta.

Enfim, em comemoração aos avanços, sugeri que todos os países enviassem uma mensagem ao espaço, evidenciando a sua sua forma de ser visto: características, culturas e traços mais representativos. Os países africanos escolheram a simbologia Adinkra, um dos nossos maiores tesouros, conhecidos por boa parte do mundo. Admito que aquilo me pareceu muito mais simbólico do que sério, pois ficção e realidade ocupam lugares distintos, mas terei que rever esse conceito.

Meu trabalho como astro-antropóloga parecia relevante no início, mas depois de algum tempo analisando pedras e poeira espacial para avaliar a possibilidade de colônias, deixei de achar aquilo interessante. Os dias e horas fazendo aquilo se tornaram enfadonhos e incrivelmente solitários. O fogo havia sido apagado pelos relatórios e regularidades do cotidiano, mas me mantive lá, agarrada à esperança de algo incrível voltar a acontecer e este dia havia chegado.

Estaremos em nosso destino em breve, já vejo a área de decolagem dos aviões espaciais, das sondas e também outros helicópteros guardando o espaço aéreo ao redor e, um deles afasta uma aeronave civil tentando se aproximar. Já Cecile, avista da outra janela, no solo, inúmeras pessoas e três cúpulas de acompanhamento.

No caso do estudo de meteoritos caídos em solo ou na recuperação de sondas-pesquisa que pousam fora da área comum, usámos apenas uma, procedimento padrão ou nem isso, mas aquelas, ela percebeu… eram bem maiores e uma delas era guardada em especial.

Desembarcamos na cobertura do prédio da Aliança e dali era possível ter uma bela vista de Kinshasa ao longe, silenciosa e reluzente, um ótimo lugar para ver as estrelas de forma amadora, só você e seu telescópio. Ali eu me lembrava do início, de quando me perguntava o que poderíamos fazer e encontrar no espaço.

Descemos em compasso rápido até o elevador e três andares depois, saímos no da Sala de Convenções, jeito pequeno de chamar um espaço que pode ser comparado a uma versão média da cúpula da ONU, que fica a vinte minutos daqui. Este é o único continente sem vestígio nuclear. Nos tornamos uma potência em energia limpa.

Pude perceber uma grande movimentação nos corredores e não apenas isso, senti nitidamente que me observavam e cochichavam algo do tipo “ela deve saber…”, “e se ela não souber…”. Aquilo foi me deixando angustiada, o que eu deveria saber? Mas a cereja do bolo, grande o suficiente para me esmagar estava logo à frente, a temida – Sala –  com suas portas blindadas, mas transparentes permitiam ver o alvoroço lá dentro que silenciou assim que perceberam a minha presença, aquilo foi desconcertante. Olhamos uma para a outra e entramos, Cecile foi convidada a se sentar na primeira fileira, e eu fui guiada sem direito de escolha e sob olhares curiosos ao centro do círculo.

— Dra. Adimu, tem ideia do que está acontecendo?

— Não sei ao certo Sr. Secretário Geral, não fizeram a gentileza de me informar em detalhes, logo não sei o que poderia responder e nem sobre o que – falei ao responsável da ONU, acompanhado da presidente da Aliança dos Países para o Desenvolvimento Espacial (APDE), minha chefe, que me olhava fixamente.

Tentava mostrar alguma coragem, mas enquanto esperava uma resposta oficial, percebi que conhecia muitos dos rostos a minha volta, eram todos e todas, chefes ou presidentes. A nata do poder estava ali e pouco a pouco senti minha coragem se esvair pelos poros enquanto suava frio, imaginando o que poderiam querer de mim.

— Dra. Adimu, poderia dizer a todos aqui, quando tivemos o último contato com a sonda Global? – perguntou o Secretário.

— Sim senhor, apesar das novas tecnologias, o seu último envio foi feito dois anos atrás e seu sinal era extremamente fraco, especialmente por ser tratar de um objeto pequeno que não foi feito para funcionar por tanto tempo – assinalei, ainda sem entender do que estavam falando e arrisquei perguntar.

— Ela voltou a responder? Há uma mensagem?

— Doutora, hoje às 23:59h vários pontos de observação espacial pelo mundo detectaram algo impossível, digno de ficção científica, a aparição da sonda capsular Global que está neste exato momento em nossa área de decolagem espacial, sem um mísero vestígio de radiação, nada e como se não fosse o suficiente, parece que ela veio com uma mensagem endereçada a você – me disse a presidenta seriamente.

Fui cercada por um silêncio retumbante. Ela não poderia estar falando sério… haviam vários fatores a considerar: a distância alcançada em duas décadas, a falta de radiação mínima, uma improbabilidade para dizer o mínimo, e ainda, uma mensagem. Não… isso é surreal demais ou ao menos deveria ser.

 E enquanto pensava a respeito, a mesa holográfica ao meu lado, que serve para apresentar informações, relatórios e outras coisas se iluminou.

Havia uma palma de mão na tela levemente curvada para cima, tridimensional e de brilho pulsante. E não sei porquê, resolvi fazer uma pergunta tola, mas que me pareceu… apropriada naquele momento. Me daria tempo para respirar.

— E… porque acreditam que veio endereçada a mim?

— Cada continente disponibilizou um representante de sua área espacial. Tudo ao nosso redor funciona por biometria, doutora, então não foi difícil descobrir por escaneamento que a palma de mão era sua e que a curvatura corresponde ao tamanho exato da capsula, dentro da sonda, enviada ao espaço. Mas sabe o que é curioso? Me lembro do protocolo, de todos usando luvas ao introduzir a mensagem no interior da sonda. Isso é interessante, e talvez queira acrescentar alguma nota sobre o ocorrido, Dra. Adimu? – concluiu a presidente da Aliança com uma pergunta bem direta.

— Bem… eu estava empolgada e não resisti, disfarcei, tirei a luva e toquei a capsula. Ela iria tão longe e pensei que talvez aquele objeto frio precisasse de um toque… humano – respondi sem pensar. Uau! Que resposta foi essa que acabei de dar? Deveria ter me desculpado e só. Isso foi patético, eu quero sumir.

Estava implícito no olhar do Secretário Geral, da Presidente e de todos ali que a minha resposta era ridícula, mas por favor, eu tinha vinte anos, ora, na época me pareceu apropriado e mesmo que não tenham gostado, hoje temos algo incrível acontecendo na história espacial graças a mim, por assim dizer.

A presidenta e o secretário conversaram algo e então, não mais que um minuto, acredito, e então ela voltou sua atenção a mim.

— Pois bem Dra. Adimu, chegou a hora de refazer o seu ato, a mensagem espera o seu “toque humano”. E ficaremos daqui acompanhando cada segundo do ocorrido lá embaixo – ordenou a presidente. Sendo assim, a minha única opção era levantar e ir até às cúpulas.

Cada andar que descíamos me provocava um misto de medo e euforia. Olhei para as minhas mãos e fiquei acalmando-as, pensando que deveria ter tocado com a esquerda, imagine ela indo parar em outro lugar no espaço ou eu por inteiro? Nada de muito lógico me atravessa a mente naquele momento, mas a sonda estar a poucos metros de mim também não é plausível, então me sinto à vontade para cogitar qualquer coisa, por mais absurda que pareça. Hoje é dia.

Apesar da falta de radiação, insistiram para que eu e Cecile colocássemos roupas especiais, mas me recusei, o traje é altamente incômodo fora do espaço, está calor e eu não precisava dele, e sim de estar diante da sonda, da mensagem na cúpula a minha frente.

Atravessamos o corredor que leva à cúpula principal, meu coração batia nos ouvidos, forte e vi que ao redor haviam câmeras, que tudo estava sendo registrado e acompanhado lá encima. E aqui embaixo, só eu, minha assistente e mais dois cientistas observadores, ninguém mais.

Aquele encontro me deixou sem palavras…

Era realmente a pequena viajante com um bom aspecto, mas envelhecida pelo tempo e medianamente corroída, mas inteira, talvez até demais. Vi que ao seu redor havia uma esfera granulada e sem dar a chance de me dizerem não, toquei-a e percebi que as minúsculas esferas, que formavam a maior cediam e não me impediam de atravessar o braço, o corpo e chegar até o centro.

Os cientistas levaram um susto com a minha atitude e Cecile também, mas foi a decisão certa e agora era mais nítida a visão da sonda que no seu topo, apresentava uma espécie de holografia que reproduzia perfeitamente o meu toque nela, vinte anos atrás, centímetro por centímetro até a perfeição. Andei ao redor, fascinada pela ideia de ter atravessado o espaço, quase que de forma instantânea de não sei onde e, a falta de radiação total e completa era intrigante, talvez uma forma de facilitar as coisas, permitirem a nossa proximidade. O que será que sabem sobre nós?

— Dra. Adimu – a voz de um dos cientistas me faz retornar ao motivo de eu estar ali.

Sim, era chegada a hora, olhei para Cecile do outro lado da esfera, apreensiva, e depois para a câmera que transmitia tudo, instalada no topo da cúpula. Sabia que estavam me observando e esperando o próximo ato. Então… respirei fundo, me posicionei corretamente e estendi minha mão trêmula para dentro da imagem, mas foi curioso, não era exatamente uma holografia, uma imagem e sim um tipo de assento, denso, informei aos cientistas.

Assim que ocorreu a total combinação, senti um formigamento, como se aqueles pontos estivessem vivos e então a imagem da palma da minha mão começou a estremecer e emitir um brilho pulsante. Recolhi meu braço e o segurei forte em meu peito. Nem sei nominar o que sinto. A imagem então começou a girar, crescer e explodiu. 

Foi magnifico ser testemunha daquilo, a esfera maior que me cercava ficou um pouco mais densa na superfície por conta da adição e então, começou a subir dentro da cúpula, ficando suspensa, talvez um metro do chão. Sai do centro sem dificuldades para contemplá-la, extraordinariamente linda. Ouvi os cientistas dizerem que tinha dois metros de diâmetro. E como se não fosse estranho e fascinante o bastante, a belíssima esfera começou a se achatar e ao mesmo tempo se dividir. Me afastei esperando o próximo ato, sem ousar adivinhar o que acontecia diante de nós.

Meus olhos estavam a me pregar uma peça? Não acreditei no que via, lentamente se formar ali. Era um símbolo conhecido de todos, e ele começou a se formar diante de nós e minha única reação foi sorrir. Era um Adinkrahene, o “Chefe” de um conjunto de ideogramas chamado Adinkra, onde cada um remete a um provérbio e significado.  Ali estava a sua representação: três círculos, onde um engloba o outro sem se tocar, uma unidade infinita.

Significa… grandiosidade, carisma e liderança – disse apenas para ouvir as palavras que ecoavam em minha mente repetidamente.

Queria ficar mais tempo lá, mas nos retiraram alguns minutos depois da formação e voltamos imediatamente para a Sala de Convenções, com certeza para eu dar explicações sobre o ocorrido, mas não as tinha.

Assim que entrei, o alvoroço recomeçou, agora alimentado pelos últimos acontecimentos. Alguns estavam pasmos, outros e outras extasiados, eufóricos, mas havia quem não estivesse gostando nem um pouco, talvez acreditassem que a mensagem seria mais universal se fosse europeia, americana, mas ela era africana, escolhida por eles, elas, seja lá quem forem e isso era absolutamente fantástico.

— O que vimos Dra. Adimu, pode nos explicar ou dizer algo? Doutora? – não ouvia ninguém a minha volta. Estava fascinada demais pela imagem no grande telão e por sua importância. Qual seria o propósito?

Para nós, especialmente após todas as difíceis e longas mudanças políticas e conversações de paz por toda a África, refazendo fronteiras, povos, países, consciência, história, cultura e dignidade, o Adinkrahene se tornou um símbolo de unidade.

É como se representasse nossa existência: o berço, as civilizações, os cortes sofridos através da escravidão, colonizações, racismo, nossa breve história moderna comprometida, tudo, e compreendido que mesmo desterrados, fugidos ou nascidos longe, seríamos algum dia novamente uma unidade, ainda conectados por nossa ancestralidade pulsante.

Mas o símbolo também era lido por muitos como um presságio da ação e reação do espalhar dos povos. A pedra que gerou o nosso movimento para o bem ou para o mal no espelho d´água da história do mundo, mas não nos dissipamos sem volta, pois nos seus limites, os três anéis, voltamos a nos encontrar. Eis o motivo dele personificar o Dia das Áfricas pelo Mundo, nada mais assertivo.

— Doutora Adimu, o Secretário Geral… – Cecile toca o meu ombro e me traz de volta ao mundo, e claro, à cara de poucos amigos de muitos ali.

— Desculpe senhor, e senhora, me distraí.

— Percebemos doutora e devo informar que já recebemos a oferta de vários cientistas se colocando à disposição para chefiar a pesquisa – e logo atrás dele apareceram os rostos, estrangeiros mais disponíveis pelo lobby do que pela ciência. E óbvio, as reclamações dos presentes começaram e minha voz se juntou a deles. A história espacial sempre nos deixou a margem e agora até aqui, tentariam de novo, não. Isso não vai acontecer.

Temos direito à descoberta, a chefia da pesquisa e boa parte da equipe também. Foi um intenso debate e desgaste, mas fincamos pé e não aceitamos as indicações estrangeiras e não associadas, e finalmente, após muitas conversas e acordos, nos deram a escolha do grupo, e ficou sob minha responsabilidade apresentar ao Comitê Especial toda e qualquer novidade, mas quem disse que seria fácil extrair alguma novidade dali.

A equipe tinha era composta por profissionais de física, matemática, especialista em informática, arqueologia, alguns técnicos para gerir o funcionamento do local onde ficaríamos e eu. O grupo não poderia ser grande e precisávamos urgentemente construir uma nota com a assessoria de imprensa da ONU e APDE que dariam uma coletiva às 8 da manhã, pois o assunto já havia viralizado nos meios de comunicação. Afinal como explicar uma sonda fora do alcance, surgindo do nada, de volta ao planeta? O fato agora era de conhecimento de meio mundo, senão o mundo inteiro.

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O dia seguinte colocou a pequena equipe em atividade, fomos levados ao Núcleo de Pesquisa da APDE, próximo de onde a sonda está. Nele, poderemos nos debruçar sobre a mensagem, comunicação, não sei… mas estava ali e nós ficaríamos também, confinados, dormindo em cômodos padrão. Nos deram uniformes, produtos de primeira necessidade e nenhuma forma de contato com o mundo, a não ser televisão onde assistíamos todas as especulações. Cada passo nosso era vigiado, exceto no banheiro, mas passávamos por revista. Queriam ser os primeiros a entender o ocorrido e isso significava sigilo absoluto.

Então começamos a nossa jornada rumo a tentar descobrir o que significava a mensagem. Por dias revisamos tudo o que nos levou aquele momento: analisamos a mensagem capsular, da detecção da sonda até o Adinkrahene, fizemos testes e tentamos imaginar mil possibilidades, mas não conseguimos nada. A única coisa que percebemos foram ruídos que não conseguimos desvendar o padrão, mas que faziam sumir uma esfera a cada ocorrência. Pesquisamos livros sobre cultura, binários e tantos outras ideias físicas, matemáticas, mas tudo o que nos veio à cabeça não nos possibilitou sequer arranhar a resposta, sequer um vislumbre. Já haviam passado 28 dias e começamos a duvidar de nossa capacidade e sanidade, presos ali.

— Parece muito tentadora essa sua combinação para o café da… madrugada – insinuou Cecile ao se sentar no refeitório ao meu lado.

— Deveria experimentar, descobri que passar manteiga no biscoito maisena melhora a vida e no nosso caso, qualquer descoberta deve ser comemorada – respondi com um brinde sarcástico.

— E o que isso significa? Que nossas tentativas mirabolantes não são a solução. Em tese, tudo o que sabem sobre nós está na mensagem capsular enviada na sonda, mas nada funcionou até agora.

— Isso eu percebi Cecile, tudo o que sabem sobre nós foi lido ali, espera… talvez eles tenham entendido melhor as mensagens do que nós – comecei a cogitar uma possibilidade extremamente lógica e a sussurrar também.

— Como assim? Não entendi.

— Cecile, só testamos o que podia ser visto, o material, os símbolos, mas e o imaterial de uma cultura?

— Continuo sem conseguir te acompanhar Adimu, o imaterial seria…

— Que vergonha, meus pais eram estudiosos, mas eu queria tanto me enturmar que abracei a lógica e esqueci o quanto o conceito cultural é relevante. Não são os conceitos científicos que me fazem uma congolesa-brasileira ou de você uma angolana, tudo isso veio depois de nos percebermos como pessoas no mundo. É a que cultura nos molda desde que nascemos, os ritos, as semelhanças e diferenças. E se a chave for algo primordial? O vídeo começa com um símbolo Sankofa e ele diz… nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou para atrás, o testamos enquanto imagem, mas a resposta pode ser anterior, o imaterial, o significado não escrito, mas compreendido – comecei a cogitar que poderia alcançar a solução, ou melhor, quem a tivesse.

— Então você sabe a resposta?

— Óbvio que não Cecile, isso é fato, abandonei muito do que sou e abracei números, teorias, mas… há um grupo, um único grupo que com certeza sabe a resposta — insinuei à minha assistente.

— A Ordem dos Anciões Africanos? Acha que eles podem… mas como contatá-los? Você ouviu tão bem quanto eu, foram bem claros sobre qualquer tentativa de compartilhamento de informações – Cecile me lembrou que “banimento total de qualquer possibilidade de trabalho com nossa área de atuação” seria uma espécie de morte profissional, a minha certamente.

Engoli em seco a lembrança, mas não tínhamos o que fazer e sentia no meu intimo que precisava encarar os fatos, pois a possibilidade de terem visto algo mais interessante que a nossa matemática e física que, para eles, elas, deveria soar primitiva ou sem sentido era bem plausível. Era só olhar a tecnologia das esferas para ter certeza disso.

— Não tenho ideia do que fazer, mas quero colaborar – Cecile se colocou ao meu lado para me ajudar a sair dali.

Por sorte, a mensagem inicial estava em todo o lugar, mas a resposta, o símbolo não e como era um dado vigiado, precisei improvisar. Consegui copiar do sistema, levar para assistir num telão e na hora de retornar a cópia, fiz algo primário, mas eficiente, eu e Cecile nos esbarramos, as mídias caíram, nos desculpamos entre sorrisinhos bobos e coloquei uma vazia no lugar. Agora era contagem regressiva, eu tinha 12 horas para sair dali, pois no momento da destruição da cópia, o sistema perceberia que não a entreguei e começaria a caçada. E por isso, eu e Cecile analisamos tudo o que ocorria durante uma semana antes desse momento, e descobrimos uma falha de segurança que obviamente ninguém imaginou que doutores poderiam cogitar, o lixo na madrugada de quarta-feira. Nem uma mísera câmera naquele setor.

Provoquei um mal-estar proposital para ir à enfermaria dias antes e lá consegui obter dois remédios, um que provocaria em todos, algo semelhante a dor de barriga. Logo, toda a comida seria descartada e com aquele movimento nos corredores e cozinha, poderia fazer uso do segundo remédio e de uma seringa.

Não me orgulho disso, mas Cecile e eu pedimos ajuda a uma das atendentes e quando esta veio ajudar, a fizemos ir até o quarto conosco e lá, sem câmeras, a coloquei para dormir até de manhã. Me despedi de minha amiga e saí dali em busca de respostas, respostas que eu não poderia dar, tamanha a distância que sempre busquei manter da cultura, como se ela e o futuro fossem incompatíveis.

Subi na lateral do caminhão de coleta e me vi fora dali sem dificuldades, e cronometrei, tinha quatro horas antes de perceberem que a tal atendente não estava no grupo, mas eu não tinha dinheiro e mesmo que tivesse, não poderia usar um modo convencional de transporte, logo, teria que apelar a um plano B.

— Então… a doutorazinha está me pedindo ajuda? Se não me engano, você me chamou de “desserviço social à corrida espacial”. Só porque peguei algumas das suas adoráveis pedrinhas.

— Você não pegou simplesmente Asili, aquele era um meteorito importantíssimo – respondi à caçadora de recompensas bruscamente e logo depois me arrependi.

— Sabe de uma coisa… não me sinto nem um pouco inclinada a ajudar você, não mesmo.

Eu precisava dela e então engoli meu orgulho nada útil naquele momento.

— Por favor, eu preciso chegar à Ordem dos Anciões Africanos, só eles podem decifrar a mensagem que recebemos e você é a única pessoa que pode me levar até eles. Eu não tenho mais ninguém a quem possa pedir ajuda  – insisti, pois não tinha outra opção mesmo. E se tinha alguém capaz chegar até eles por meios não oficiais era Asili.

— Hummm… agora que eu senti o seu desespero, me sinto compelida como uma boa cidadã a levá-la, mas sob certas condições – me respondeu rindo sarcasticamente.

— E que condições são essas Asili? – suspirei, aguardando ouvi-las.

— 1- você não vai dar um pio sobre a forma como vou levá-la, pois não serei presa bancando a sua motorista e 2 – Quero assistir você diante dos anciãos, sempre tão crédula no poder da ciência e agora… não vou perder isso. É sim ou não, e rápido, pois precisamos de cada minuto para chegar à Timbuktu, no Mali.

— Eles estão na Universidade Histórica de Timbuktu? – perguntei curiosa.

— E onde mais estariam depois da mensagem, na primeira universidade multicultural do mundo, um lugar mais que apropriado.

Concordei com ela, não poderiam estar em outro lugar naquele momento, mas o que eu não imaginava é onde eu iria passar a próxima hora: espremida, escondida numa caixa de tecidos no pequeno avião de carga da “comerciante” Asili. Só pude sair dela depois que levantamos voo, mas tive que voltar aos meus “aposentos“ quando descobrimos no primeiro risco de sol da manhã que eu estava sendo procurada e, só pude me livrar de vez daquele desconforto quando pousamos numa pista clandestina, mas movimentada na cidade de Timbuktu e fui “transferida” para a traseira de sua caminhonete.

— E então, gostou da viagem Dra. Adimu?

— Sabe muito bem que não Asili, mas obrigada, teria muito a ganhar me entregando.

— A recompensa é tentadora, admito, mas o que está a nossa frente é mais e caso lhe interesse saber, não sou tão louca, pois se você acredita que só eles podem decifrar a resposta, então é verdade e eu quero estar lá para ver você engolir o seu diploma diante da importância da nossa cultura. Não somos nada sem essência, sem o que nos faz únicos e não estou falando de células.

— É… – não tinha nada a dizer, ela estava certa sobre o que nos faz, talvez tenha sido este o motivo de eu ter sugerido o envio das capsulas, a vontade de apresentar algo, independente de nos conhecermos ou algum dia termos nos encontrado. Eu tinha perdido a minha existencialidade.

Algum tempo depois, alcançamos a Universidade Histórica de Timbuktu, o local mais visitado do mundo quando se trata de conhecimento africano avançado em pleno século XV, uma rota comercial efervescente, conectada à Europa e enquanto muitos no mundo, ainda acreditavam que a Terra era plana e mal conheciam a razão e além. Ali já estudavam um planeta redondo e descreviam chuvas de meteoritos com cálculos que deixariam John Locke mudo, estático e Einstein ruborizado.

A Astronomia, biologia, química, matemática, botânica, medicina, climatologia, óptica, geografia, tratados políticos, jurisprudência e até astrologia, um pouco de tudo. Estar diante daquelas paredes de barro e respirar o ar seco daquela região me faziam lembrar que muito daquele tesouro, felizmente preservado, era só um vislumbre do que fora em seu auge e assim como aconteceu em outros países deste continente. A ignorância humana e o narcisismo religioso haviam transformado parte daquele conhecimento valioso em cinzas ou pilhado para futuramente declarar sua propriedade. Mas o que esperar de um mundo que a menos de dois séculos atrás ignorava Inhotep como o “pai da Medicina” ou que não estudava a verdade sobre os gregos que “floresceram a humanidade” após sugar toda a Escola de Mistérios e as bibliotecas ao redor para formar uma “supostamente composta de seus conhecimentos” no Egito por décadas e tantas outras coisas? Há quem acredite nesta impossibilidade…

Estar ali me deixou ansiosa, pois falar com as anciãs e anciãos do conhecimento africano, um grupo debruçado a resguardar todo o conhecimento material e imaterial não é algo simples. Já tinha testemunhado pessoas entrarem para falar com eles em tom altivo e sair de lá como um cachorrinho caído do caminhão de mudanças com o rabinho entre as pernas. Saber que eu faria parte daquele hall me doía o estômago e mais algum órgão que não conseguia identificar de tão nervosa.

— Eles não vão te almoçar! Anda logo, temos que sair das ruas ou será que esqueceu a recompensa que pediram pelo seu paradeiro – me lembrou Asili, enquanto me empurrava portão adentro daquele local recoberto de história em cada tijolo.

Fomos até um prédio menor, após os principais, novo, mas feito nos mesmos moldes dos outros pelo qual passamos e assim que o adentramos, um jovem nos recebeu como se já esperasse por nós.

— Venha, eles a esperam já faz algum tempo – aquilo me pareceu curioso e resolvi perguntar.

— Sabiam que eu viria até aqui? E a quanto tempo me esperam?

— A dias, para ser mais exato. Entrem – me disse ao abrir a porta e fechá-la logo após passarmos. Aquela certeza em seus olhos me assustou.

Me lembrei imediatamente do lugar, a Sala de Debate Oval. Fazia muito tempo que não entrava ali. A última vez foi dez anos atrás quando era comemorado o repatriamento dos “Ossos de Ishango”, quer dizer, os Ábaco Ichangi, retirados do Congo durante a exploração colonial belga no século 19 e exposto num museu de lá, um capítulo estarrecedor da história que nenhum pedido de desculpas, que aliás nunca existiu, poderia amenizar.

Enfim, eu estava ali e precisava explicar o motivo…

— Sabemos por que veio até nós – disse um dos senhores de porte esguio,  barba branca e rala, sentado na primeira fileira assim como todos os outros e outras.

— Como não poderíamos saber Dra. Adimu? Afinal, o mundo espera que resolva a questão o quanto antes, mas se deseja a nossa ajuda, conte em detalhes o ocorrido – disse uma das anciãs de dreads grisalhos na altura dos ombros.

E foi o que fiz, contei cada detalhe sem deixar nada de fora e mostrei a gravação de tudo o que ocorreu na cúpula.

— E é isso… eu não tenho condições ou o conhecimento necessário para fazer contato, não sei o que querem de mim.

— Na verdade, você tem sim Adimu, a ideia foi sua, o que deve ter feito compreendem que você estava pronta para ser a anfitriã, que seria a ponte entre nós – disse uma outra anciã de cabelos curtos, que apareceu logo atrás de mim.

— Mas já se passaram dias e a imagem some ponto a ponto – respondi um tanto angustiada. A pressão por respostas estava me enlouquecendo.

— É o que veio buscar aqui? Uma resposta? – perguntou a senhora novamente.

— Não sei mais se busco uma resposta, e não tenho a menor ideia do que fiz até agora, sinto que tudo o que sei não dá conta de resolver a questão – falei de uma vez e me senti aliviada por tê-lo feito, apesar de muito triste.

— Compreenda uma coisa Adimu, o que enviou ao espaço não se tratava de você e sim de nós, como um todo, um povo. Então era obvio que não teria a resposta por completo, o futuro é uma incógnita, o que não deveria a impedir de compreender o que desejam. Não é complicado e meu nome é Amai – me disse com um sorriso no rosto.

— Olá senhora.

— Olá, e me faça um favor, pegue duas cadeiras ali no canto e você Asili, sente-se aí. Vai ficar em pé até quando? – aquela voz suave tinha um escopo firme e a atendi prontamente, duas cadeiras e nos sentamos para continuar a conversa.

— Eu não estou entendendo, qual, afinal é a minha participação? E como podemos nos comunicar afinal de contas?

— Pobre menina limitada por seus diplomas e necessidades físicas… será que ainda não entendeu, o Adinkrahene é um símbolo de infinitude, sem corte, bordas. Acha que eles viriam aqui por interesse em objetos ou enfadonhos números binários, derivadas? Acredita nisso?

— Não sei no que acredito, preciso de orientação.

— Pois bem, vamos começar a aula – disse a senhora animada ao se levantar e esmiuçar o assunto de modo que eu entendesse o que esperavam de mim.

— Adimu, abandone as conexões físicas que a limitam e transcenda ao imaterial. Os nossos símbolos e formas de comunicação transferem algo que não pode ser visto, você enviou mais que imagens em alta definição, você os apresentou a algo que vai além das quatro dimensões que conhecemos: altura, largura, profundidade e tempo. Já cogitou a possibilidade de serem capazes de quantificar o que chamamos de imaterial? E no nível material, o que será que nos conecta?

— O que está tentando me dizer?

— Quando você, Dra. Adimu deu a ideia da capsula, por mais que tivesse interesse em status, você queria conexão, queria ser vista unicamente, transmitir um referencial, por isso tocou na capsula, mesmo que isso seja algo que a confunda.

— Está dizendo que de certa forma, eu lhes disse que poderíamos nos comunicar para além da quarta dimensão? – perguntei espantada. Será que fiz isso?

— Sim e não, minha querida, pense a respeito… somos seres físicos em três dimensões, caminhando sobre uma quarta, certo? Mas o que te move nela? Pode me dar em uma equação? Colocar na palma da mão? Extrair e expor num microscópio? Não, você veio atrás de uma resposta, mas não foi a pergunta que te trouxe aqui, nem o tempo por si só. Então…? Se não compreende, talvez seja melhor que achem outros para se comunicar. Eu, no lugar deles o faria – me disse olhos nos olhos e então percebi o quanto os dela estavam ávidos por minha compreensão, antes de se afastar.

Fiquei ali, parada, sem saber se tinha conseguido compreender o que me dissera, mas se quisesse mais explicações, não as teria. Ouvi o som de helicópteros e sabia o que estavam fazendo ali.

— Muito obrigada Asili – disse a ela no canto, sem muito ânimo para reclamar.

— Mas eu não chamei e apesar do que pensa de mim, cumpro minha palavra.

— Ah sim, fui eu, você precisa voltar logo, pois pelo o que me disse, o tempo de resposta está se esvaindo. Logo, não vejo outra forma de retornar a tempo e adrenalina, às vezes, ajuda e muito a pensar – disse Amai animada.

— Mas eu não tenho a resposta!

— Não se trata de “eu”, nunca se tratou. Espero que entenda isso a tempo doutora. Logo estarão aqui.

Eu não acredito que ela tenha mesmo o pensamento de ter me “ajudado”, só pode ser brincadeira, pois não vejo como um retorno ao laboratório, algemada, soe como uma colaboração.

E então os oficiais entraram pela porta que foi aberta pelo jovem de forma educada, sem surpresa, o que estranharam de imediato.

— Dra. Adimu, precisa voltar conosco – disse um deles antes de ser interrompido por Amai.

— Tire essas algemas da moça, pois foi ela quem pediu que os chamasse, a Dra. Adimu tem a resposta! – os guardas ficaram espantados, Asili ao fundo também, e eu, principalmente, pois não o fiz.

As palavras de Amai surtiram efeito, guardaram a algema plástica e me pediram para segui-los e eu sem saber o que fazer, caminhei até a porta. E então parei.

— Espera aí… o que disse sobre dimensões. Eu… sou a ponte e uma ponte faz a conexão, logo… todos precisam vir comigo! – apontei para todos os anciãos e anciãs na sala que se levantaram de imediato, e seguiram comigo para o helicóptero a 200 metros mais ao fundo. E da janela pude ver Asili e o rapaz nos olhando partir.

Seria tão bom se eu estivesse por dentro tão convicta como por fora, mas a verdade é que tenho dúvidas, mas ao mesmo tempo meu instinto diz que estou fazendo o certo apesar de ainda não ter decifrado exatamente o que pretendo fazer ao chegar ao local da mensagem.

Enquanto olho pela janela e vejo tudo passar, Amai me observa e assente com a cabeça, como se estivesse confirmando algo sobre mim, como seu eu estivesse com a resposta ao meu alcance, talvez até com ela em minha mente e quero acreditar nisso, que a tenho e por isso volto aos meus pensamentos buscando entender o meu papel nisso tudo.

Algum tempo depois, avistamos as cúpulas e o prédio da Aliança, hora de pousar e enfrentar o que está por vir.

— Mas o que é isso Dra. Adimu? – me pergunta a Presidenta.

— Eles estão aqui porque sabem o que fazer, o que devemos fazer. Preciso de todos na Cúpula, ou melhor, preciso que aquela coisa saia de cima da mensagem imediatamente – e foi apenas o que me limitei a dizer enquanto todos e anciãos e anciãs desciam do helicóptero.

Todas as pessoas pertencentes ao grupo de pesquisa e colaboradores estavam à espera dos técnicos realizando a tarefa de tirar aquela capa de cima da mensagem e assim que o fizeram, Amai e os outros anciãos se aproximaram e tocaram a mensagem, suas mini esferas e riram, como se diante deles estivesse algo muito simples, simples mesmo.

— E então? O que faço? O que não estou vendo? – perguntei à Amai baixinho.

— Na verdade, você está vendo tudo o que precisa ver, a conexão mais básica de todo o universo é esta… – me disse em tom suave e complementou. — E faça logo o que tem que fazer anfitriã, o próximo passo não pode ser dado sem que agite as coisas por aqui – Amai piscou para mim e então se afastou, e eu fiquei ali com todos me observando, esperando que eu desse a eles a resposta, o que fazer.

Enfim, respirei fundo e comecei a observar a mensagem e busquei pensar em tudo o que Amai havia me dito desde Timbuktu até ali.

Ela me disse que sou uma anfitriã, pois lhes disse que poderíamos nos comunicar, conectar. O Adinkrahene é o ideograma principal dos Adinkra sob o qual cálculos de derivadas, lógicas simétricas e outras possibilidades que usamos para explicar o mundo não se aplicam. Ele é o início, o primeiro, alguns o chamam até de núcleo como se ele… não, não pode ser. Será? É essa a conexão? O que nos une…

— Amai? O que nos une, a nós, a eles, o universo, a forma mais simples… – disse a ela enquanto pressionava para baixo o aro mais externo do Adinkrahene e sentia que se movimentava verticalmente. Todos se assustam ao perceber a agitação não só do aro, mas das minúsculas esferas que o compõem, soltas e unidas ao mesmo tempo. Como não havia percebido até então?

Agora faz sentido e acho graça, pois a princípio nunca cogitei exercer qualquer tipo de força. Começo a supor que… o motivo de terem enviado a sonda de volta e de não terem vindo diretamente tem a ver com um aspecto comum em nossa existência enquanto orgânica. Talvez nunca consigamos estar num mesmo lugar, então…

— Dra. Adimu, pode nos dizer o que está acontecendo? Por que sorri? – me pergunta a presidenta, a única representante que veio ver de perto o ocorrido.

— Senhora Presidenta. Creio que estamos olhando para um portal – afirmei com total certeza.

— Do que você está falando? De uma forma de virem até aqui?

— Não, nada disso… eles, elas, não importa o artigo, alcançaram a tecnologia, uma forma “mecânica” de vencer a distância no espaço e se comunicar.

— Explique doutora em detalhes o que está a sugerir.

Nesse momento, Amai sorri e me sinto confiante para começar a explicar.

— Sabemos que não podemos viajar na velocidade da luz, anos-luz, sequer um aninho, pois o mesmo equivale a se mover aproximadamente 9.460 trilhões de quilômetros, e o nosso corpo de octrilhões de átomos não resistiria e se conseguisse, a radiação maciça de um evento como esse nos mataria em seguida. E claro, não temos fonte de energia-combustível para provocar tamanho deslocamento e nem material que suporte a pressão, a ação-reação de algo tão incrível, apenas teorias. Resumindo, somos matéria orgânica e sabemos nossas limitações e agora, eles nos dizem que também não transpõe essa barreira. São seres com mais tecnologia, sim, mas atravessar galáxias é outra coisa.

— Está me dizendo que diante desta impossibilidade, resolveram nos enviar um portal de comunicação?

— Sim senhora. É o que afirmo e o Adinkrahene foi escolhido por eles por lembrar a coisa mais básica que nos une, o átomo – disse a ela, a todos ali e às câmeras que transmitem tudo o que ocorre em tempo real para os prédios da APED e ONU. Todos ouviram cada palavra que disse até ali.

— Essas esferas, senhora, são um novo nível de maquinário, fora de nosso conhecimento químico de matéria, não podemos tirá-las de sua órbita, por assim dizer, mas a desintegração de algumas nos deu a noção de uma contagem de tempo, e mais, nossa atmosfera não as alimenta, mas seu sumiço sem alterar nada ao redor ou emitir radiação fazem delas um elemento familiar, uma manipulação que ainda não fomos capazes, mas que seremos algum dia. E meu “toque humano” pode ter contado algo mais sobre nós além de sermos uma estrutura orgânica.

— E o que devemos fazer? Como isso funciona? – me pergunta Cecile animada.

— Acho que precisamos agitar as coisas… – digo a ela, enquanto me movo e explico o que faremos, do núcleo para o exterior do Adinkrahene. E óbvio, quero fazer parte de cada ato de movimentação.

No aro central, eu e mais quatro pessoas sacudimos e forçamos o seu movimento de forma vertical e circular. Exercemos força, muita força e então elas começam a se mover, as pequenas esferas iniciam um movimento rotacional sobre um suposto eixo. É delirante! E há faíscas de energia em seu interior. Meu coração está acelerado como nunca antes!

Agora, no segundo aro, somos dezessete pessoas pressionando e pressionando, motivados, extasiados e então novamente temos uma esfera granulada girando e girando. É fascinante ver que as menores que a formam seguem um movimento circular e desordenado sem nunca tocarem uma a outra. É lindo! E no núcleo vemos mais energia. Está acontecendo! Está acontecendo!

E então o último aro, agora somos vinte e nove pessoas contagiadas por uma sensação inquantifícavel, mas real, que nos toma e a cada esforço sentimos que podemos e então… fazemos, o último aro gira! É perfeitamente esférico e imprevisível, o que faz as dentro se moverem mais e mais rápido. Isso é tão único, especial de tantas formas. Não consigo expressar em palavras ou superequações.

E então o núcleo nos dá a impressão de se tornar uma bola maciça de energia e lá está… um vislumbre de uma galáxia inteira orbitando ao redor de dois sóis… minha nossa, como é lindo! Será este um tipo de apresentação? Nos aproximamos de um planeta azulado e vermelho. Nem me atrevo a explicar.

A superfície é azulada e vemos ordenações esféricas numa ordem elíptica não fechada, circular achatada, voltadas em todas as direções que lembram e muito as antigas organizações residenciais em estilo fractal no Zâmbia séculos atrás, mas que podem ser encontradas em toda a cultura dos povos africanos e na natureza. Me vem imediatamente à cabeça a Aloe Polyphylla, a Vitória-Régia Amazônica e o Brócolis Romanesco. O padrão matemático de divisão é sempre perfeito, não importa se é um quadrado, triângulo ou círculo, mas matemático é a forma que encontramos para explicar o que já estava ali. Talvez haja outras formas de explicar, mas não a vislumbramos ainda. E como é Impressionante… não duvido que estejamos olhando para moradias e não vejo o que chamamos de ruas.

Uma mudança súbita de ambiente e estamos dentro da moradia esférica maior, com certeza, eu não duvido e… eu os vejo, eles estavam à nossa espera, parecem alongados, mas… não sei se possuem uma forma certa. A superfície de seus corpos é fosca e negra, mas parecem coloridos numa certa altura do corpo para baixo.

São assim ou é um sinal de boas-vindas em resposta a nossos tecidos coloridos e cheios de formas e simetrias? E não tem braços, talvez seja algo indiferente, mas percebo que um feixe de luz sútil atravessa as esferas, do referencial deles, delas, da exterior para a interior. Seria a forma de linguagem deles, delas? O que captaram? Espera… um deles parece criar um braço, mas sem uma mão, não busca nos copiar em forma e o estende para além do núcleo até a esfera exterior, agora do nosso ponto referencial. Sabemos o que esperam de nós, de mim, o próximo passo.

Eu me aproximo, temerosa, mas o fascínio supera tudo, tudo. Nunca mais serei a mesma e seja lá o que sinto parecem responder a isso, vejo energia percorrendo seu braço, corpo até onde acredito ser sua cabeça, uma resposta aos meus sentimentos? Ainda não a sinto, mas isso vai mudar, estendo minha mão até a dela, dele, no limite da esfera e ao fundo ouço Amai dizer…

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