O mundo dá voltas e foi assim, entre pesquisas sobre afrofuturismo pelo mundo que achei o curta PUMZI, palavra em swahili que significa “respiração”.

Este curta afrofuturista foi escrito e dirigido pela queniana Wanuri Kahiu e lançado em 21 de outubro de 2009.


E a sinopse diz o seguinte…

Uma mulher se torna curiosa sobre o mundo exterior depois de uma catástrofe global neste breve drama de ficção científica da escritora e diretora Wanuri Kahiu. Trinta e cinco anos após o fim da Primeira Guerra Mundial – num conflito por água – Asha (Kudzani Moswela) é uma mulher que vive em uma pequena comunidade fechada de sobreviventes na África. Os suprimentos de água da comunidade são preciosos e devem ser cuidadosamente monitorados, até a urina é enviada através de um processo de purificação para ser reutilizado. Enquanto os líderes da aldeia monitoram cuidadosamente as atividades de cada cidadão, Asha descobre uma amostra de solo esquecida que sugere que o mundo exterior ainda pode ser capaz de sustentar a vida; contra os desejos de seus superiores, ela busca descobrir o que acontece fora dos muros de sua comunidade. 

A minha impressão direta sobre o filme é que se trata de uma metáfora da África se reerguendo por mãos negras, em favor do renascimento e da vida, mas vamos aos detalhes que destaquei para compreender melhor Pumzi.

O filme começa mostrando uma sala com plantas secas em potes, recortes de jornais e um sistema que em breve entenderemos, mas a primeira imagem importante do filme é uma placa que diz “Maitu” que significa mãe, verdade, nossa e que como resultado diz “nossa verdade”.

Detalhe: Achei que seria fácil, mas não encontrei informação sobre a árvore Maitu, o nome é usado de restaurante vegano à festivais de café, mas assim que descobrir, faço um upgrade nesta resenha.

Na sequência vemos a protagonista Asha tendo um sonho, ela vê uma árvore no deserto, algo supostamente normal, mas logo vamos descobrir como este tipo de sonho é perigoso.

Seu cochilo é interrompido por um sistema que a acorda e avisa que precisa tomar um supressor de sonhos, mas por que?

Ora… Asha vive numa comunidade fechada, onde cada gota de água conta. Todas e todos trabalham sem desperdiçar uma sequer, suor e xixi são reutilizados e o exterior é proibido, não há vida, não há nada, logo sonhar com uma possível realidade livre, com vida e onde ninguém é seu dono é uma semente que se plantada na alma, pode levar a um movimento maior.

O interessante do filme é que ele é praticamente mudo, tudo se percebe pelas ações de Asha e daqueles que controlam a comunidade, não os vemos, mas seus guardas estão de prontidão.

No banheiro (3:16) Asha faz algo que mais a frente vai dar o pontapé em sua fuga dali, mas não vou contar… 🙂

Ao voltar ao laboratório, parece um… ela encontra uma amostra de terra do exterior endereçada a ela, o que faz a gente pensar que monitoram os sonhos, ela deve reportar, mas resolve analisar. E para a sua surpresa, a terra não tem vestígio de nenhuma radiação ou outra coisa que a impeça de gerar vida.

Ao cheirar a terra, Asha é tomada por uma visão ainda mais forte, não detectada pelo sistema de supressão de sonhos e desta vez, ela resolve arriscar: pega a semente de maitu, coloca dentro da terra e usa um pouco de água, mas quem controla não quer isso e não tarda a agir.

Por sorte ela se antecipa e esconde as coordenadas e a semente.

E aqui, vemos aquele detalhe lá do banheiro se voltar a seu favor, ela consegue a semente de volta e uma rota de fuga para o exterior.

E assim Asha se coloca a andar por horas e quilômetros atrás da pista de onde veio aquela terra, seguindo por um caminho árido até encontrar um punhado de árvores secas.

Ali, ela resolve plantar a semente de maitu germinada e usa toda a sua água para fazer com que comece o ciclo da vida, mas ela vai além e este final é poético e simbólico. Asha se deita ao lado da planta, a protege do sol e num fechamento primoroso, vemos cada vez menos seu corpo deitado no solo e mais da árvore maitu florescer.

Nesse fechamento, há uma sugestão sobre o nome PUMZI conforme vai tomando a tela, de que há mais árvores, plantas. Seria este um sinal de vida já existente ou resultado da maitu?

Achei esta versão sem legendas, mas é possível assistir sem problemas.

Não há como descrever a sensação de assistir algo com o qual você se identifica, uma outra visão e cor do mundo, e ainda, a perspectiva sobre o resgate da vida na África, através da existência negra.

E assistam esta conferência com Wanuri, legendada.

 

O Afrofuturismo é uma linha de resgate que tem atravessado o mundo, mas sua raiz é a África que cada vez mais se recupera, e assim, nos recuperamos todos, um passo de cada vez.

Faltou dizer que o curta arrecadou muitos prêmios e menções, até no Sundance Festival.

E não deixem de comentar após assistirem…

 

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