ACADEMIA DE TREINAMENTO DE ASPIRANTES

SAÍDA

 

Bom dia

Por favor, aproxime-se para identificação biométrica

Recruta n. 197-03

Ena Dias da Silva

Ano 3 – Superior Finalizado

Aguarde em sua residência, nos próximos 7 dias, o comunicado oficial para continuidade do treinamento no Centro Distrital.

Liberação para retorno à área residencial: Confirmada.

O não comparecimento sem justificativa plausível e sem apresentação de prova, implicará em seu imediato desligamento do Ensino Superior de Oficiais do Distrito.

Aspirante Dispensada. Tenha um bom dia.

Por favor, aproxime-se …

— Eu sei que vai chegar, eu consegui, eu sei, eu tenho certeza, eu fui aprovada, eu… – repete Ena como um mantra ao deixar para atrás a voz mecânica. Sua atenção está voltada a um só pensamento enquanto caminha para o aerotransporte que a levará de volta para casa.

— E então? Convicta? Fizemos um ótimo ano, não vejo a hora de receber o comunicado. Poderiam não nos torturar com essa espera – comenta Emily ao alcançar Ena a caminho do embarque.

— Corrigindo… foram 3 árduos anos Emily, e não vacilamos. Estamos aprovados sim! – dispara Dei, ao alcançar as duas amigas.

— Tem toda a razão, Wanderlei, se eu me lembro bem… – cantarola Emily a fim de irritar o amigo.

— Você está hilária hoje – ironiza Wanderlei, que prefere o apelido de Dei.

— Ei, por favor, eles observam a nossa conduta a todo o tempo, agora mais do que nunca – fala Ena, finalizando a brincadeira dos amigos aspirantes, e lembrando-os: — Não somos os preferidos, e sim aqueles que fizeram por merecer. Então, cautela…

— Atenção! — Embarque imediato para o Distrito Centro Sudeste – informa o soldado.

Todos se levantam da fileira de bancos do hangar e seguem em fila dupla para o aero, a caminho de casa.

Ena senta próxima à janela, afivela o cinto, fecha os olhos por um instante e finalmente suspira. A primeira fase de seu objetivo havia sido concluída, sobreviver aos árduos primeiros três anos de treinamento para ser tornar uma oficial do distrito, mas para ela, o caminho havia se desenhado muitos anos antes com dor e sangue.

Não demorou muito para que o aero levantasse voo e rapidamente deixasse para trás a área leste do Distrito. Em questão de minutos a paisagem militar deu lugar à nova realidade em que vivem, o mundo em 2407 está muito diferente, menor, impactado pela ação humana de forma nada positiva. Ao olhar para baixo, era possível avistar a destruição suavizada pelos últimos 200 anos, uma longa extensão de terra inabitada, uma mescla monocromática de escombros que daquela altura dava a impressão de ser papel picado com pequenos toques esverdeados imitando vegetação, mas era real, um vestígio do passado sendo recoberto pela natureza novamente.

Aquela paisagem morta a fez relembrar de um vídeo que assistira na disciplina de História do Novo Mundo, que tentava explicar o que havia acontecido ao planeta e à humanidade.

Vivemos num mundo resultante da inércia humana. Sempre acreditando que nada iria acontecer, alguns diziam que era excesso de zelo dos cientistas, e outros simplesmente argumentavam ser pura conversa fiada, que nada iria mudar, que sempre haveria para onde fugir ou como reverter o estrago feito a tempo. Bem… quando a Grande Mudança Climática aconteceu, não havia para onde fugir, não havia um único lugar seguro.

Havia um dito popular que dizia: Um dia a natureza vai se cansar, e ela mesma se encarregará de buscar o equilíbrio.

Bom, verdade ou não, ela o fez de forma arrebatadora e impiedosa, na medida do nosso desdém para o que fazíamos a ela. As chuvas se tornaram tempestades violentas, as ventanias tornaram-se ciclones e tornados nunca antes vistos, a maré aumentou invadindo as cidades litorâneas sem qualquer piedade, as ressacas se tornaram ondas imensas destruindo tudo. As estações do ano se extinguiram, o calor matava, o frio matava, começou a faltar alimento em todo o lugar. As pessoas fugiram, as pessoas morreram, não havia tempo ou lugar para lápides, homenagens, memoriais ou arrependimento. Aproximadamente menos da metade da população mundial sobreviveu àquele século.

A cada pausa de seis meses, Ena avistava aquela extensão morta do velho mundo, imaginando como seria caminhar por aquele lugar sem vida ou memória, um privilégio ou maldição que só oficiais tinham permissão para experimentar. À população civil só interessa como sobreviver naquele ambiente, ora amistoso e em outras hostil. Os recursos naturais existentes são respeitados e cuidados com o máximo zelo. O que sobrara da humanidade mudou bastante diante do abismo da quase extinção.

Após uma hora de voo, finalmente vida. Ena regressa ao lado urbano do Distrito Centro Sudeste, seu lar, que poderia ser definido como um tipo de Estado-Distrito planejado e separado em quatro setores: norte, sul, leste e oeste. Do alto é possível ver que tudo fora planejado para ser resistente, seguro e até bonito, mesmo com a ausência de cores em suas estruturas.

O aero dos aspirantes faz um tranquilo pouso vertical na área de desembarque ao sul do distrito, o antigo modo de pouso horizontal é coisa do passado, um desperdício de área útil. Assim que toca o chão, Ena sente um grande alívio ao pisar em terra firme, sua casa, a brisa amigável que sopra é um presente caro e impossível de se substituir, a certeza de vida.

Rapidamente todos desembarcam e seguem para a área militar do aeroporto para o controle de entrada e saída do serviço militar. Ena caminha até a porta, que se abre através de sensores de movimento e é impossível deixar de notar, apesar de já conhecer o ambiente, a sua beleza arquitetônica em toques de cinza, branco, preto e alguns detalhes de azul noite.

A primeira fase da identificação é a aproximação da retina num leitor translúcido e pequeno sob o balcão que faz o reconhecimento. As poucas pessoas trabalhando ali fazem parte da segurança da área e do embarque de oficiais, e há apenas uma pessoa verificando o andamento da fila.

Por favor, aproxime-se… 

Identificação: Confirmada.

Recruta n. 197-03

Ena Dias da Silva

Status de Saída: Regular

Por favor, coloque sobre o sensor seu ACI para reativação.

ACI civil ativado: Tenha um bom dia.

———

Pronto, agora é oficial, Ena está de folga e indo para casa, um descanso merecido. Ela pega a sua mochila do chão, seu ACI que a torna uma civil como qualquer um e se retira da área militar para a outra porta. Uma vez ali, senta em uma das cadeiras do saguão e confere os recursos que possui…

O ACI (Aparelho de Comunicação Integrada) é um dispositivo que carrega um sistema multitarefas usado nos três distritos sob controle governamental, mas operado por civis altamente qualificados, o que permite ao cidadão controlar toda a sua vida: ICN (Identificação Civil Nacional), celular, pagamento diversos, débito HBN, transporte e muito mais.

O dinheiro desta época é eletrônico, ou seja, a vida das pessoas se tornara um conglomerado de bits de computador num grande sistema público que gere os créditos e débitos, sendo que a sua mais importante função é limitar e controlar o acesso aos recursos HBN – Hidro Bio Naturais.

— Tchau Ena! – fala Dei ao passar por ela e bater em seu ombro.

— Nos veremos em breve, te ligo! – anuncia Emily ao jogar um beijo para a amiga e sumir junto com Dei no vai e vem do aeroporto.

Ena acena para eles e sorri, mas logo a sua atenção se volta novamente ao ACI, quando o aparelho informa que há um recado de sua mãe.

“Oi filha, que bom que está de volta, estou com muitas saudades, mas você não me avisou que chegava hoje. Então, devo comunicá-la oficialmente, minha querida recruta, que a dispensa está quase vazia. A semana foi muito corrida, muito cansativa, então…. Compre algo pronto para jantar no Motito´s. Eu estive lá ontem, que comida maravilhosa, do jeitinho que você gosta, tirei uma fotinha. Chego à noite e amanhã de manhã iremos às compras. Até logo meu amor. Saudades. Mamãe.”

 

Ena lê o recado com alegria, orgulhosa do trabalho da mãe, que mantém todo o Distrito Centro Sudeste em harmonia. Naira é nada mais nada menos que a Diretora Chefe do Centro de Controle de Distribuição Pública – CCDP, que controla o sistema ACI.

Ena se levanta, apoia a mochila no ombro direito e segue para a Saída 6 que é o ponto de embarque do seu VeTrans – Veículo de Transporte, uma espécie de ônibus que circula pelas ruas, mas com o aspecto futurista de um trem bala e sem rodas. Ele desliza por trilhos quase imperceptíveis no chão, que só ascendem uma luz neon e azulada bem leve quando passa. Seu designer é arrojado: tem a frente arredondada, assim como a janela frontal, já as laterais são retangulares e possuem uma leve inclinação.  Ambas são de material que controla a luminosidade interna e ajuda no controle de temperatura, propiciando um ambiente confortável para os passageiros. A capacidade máxima é de 50 pessoas sentadas, pois, por questões de segurança, é terminantemente proibido ficar em pé.

 

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