— Eu topo! – fala Emily.

— Eu já estou indo – responde Dei enquanto se afasta em direção às esteiras de saída.

Ena e Emily se olham, sorriem uma para a outra e seguem na mesma direção do amigo e em alguns instantes já estão fora do Museu do Mundo.

Rapidamente, eles se dirigem para o ponto do VeTrans, a noite está tranquila e agradável. A conversa durante o trajeto é leve e cheia de risadas, especialmente ao relembrarem as suas primeiras ações desastradas como aspirantes, Dei se torna o protagonista dos episódios ao recordar o dia em que num exercício de montagem e desmontagem de armas, quase acertou o próprio pé e derrubou toda a mesa de exercícios bélicos, silenciando o lugar e deixando o instrutor indignado com tamanha trapalhada.

Assim que descem do VeTrans, a conversa continua e em poucos instantes chegam ao Motito´s, o lugar mais divertido e amigável do mundo.

— Eu sabia, eu sabia… senti uma vibração diferente nos meus bigodes, eram vocês chegando – comenta Seu Luis animadamente.

— Não tínhamos como estar em outro lugar – responde Emily alegremente, enquanto ocupa uma das mesas do local, junto com Ena e Dei.

— E que bons ventos os trouxeram até aqui? Estavam borboleteando pela cidade, aproveitando a folga? – pergunta Seu Luis ao se aproximar da mesa e entregar o pequeno cardápio do lugar.

— Sim, senhor. Fomos ao Museu do Mundo ver uma exposição sobre o que há lá fora, o que sobrou, ou melhor, não sobrou – responde Dei.

— Coisas quebradas, amassadas, reviradas, lagartixas e outros insetos, oras! Poderiam ter feito fila aqui, eu os teria informado pela metade do preço do ingresso desse lugar – responde Seu Luis com as mãos na cintura, incrédulo com o interesse das pessoas em ver escombros de algo que não existe mais há tempos.

— Também não é assim, calma Seu Luis. Foi bem divertido. Tivemos a chance de ver alguns locais como eram em 2128, quando ainda havia a crença de uma vida à frente – responde Ena.

— Meu pai sempre dizia que a esperança, no futuro, deveria estar acompanhada de zelo, cuidado pelo que queremos ver lá no futuro, estando nele ou não. Então é difícil ter saudades do que não vi, vivi, e pior, sei que não quiseram deixar para eu desfrutar, senão teriam cuidado melhor. Panelas de qualidade são uma herança admirável! É a minha opinião!

— Não deixa de ser verdade… – complementa Dei, rindo da conexão humanidade – utensílios de cozinha.

— Claro que é. Poderiam ter feito uma arca de temperos! Tem ideia do quanto custa 10g de noz moscada? É ouro, e o açafrão? Amo açafrão! Mas é muito caro. Só compro no meu aniversário. Faço um peixe de comer rezando, sem falar da semana da moqueca, ralo pessoalmente o coco para a receita. Uma delícia só…

Era impossível não rir das conclusões de Seu Luis. Tudo gira em torno de alimentos e temperos. Suas metáforas culinárias são incríveis e não deixam de falar a verdade. Aquela conversa demorou uns vinte minutos até que conseguissem fazer o pedido sem rir ou ficarem pasmos com as sacadas rápidas dele.

— Pronto, fizemos os pedidos, mas e de sobremesa?

— Não sei Emily, o que sugere Seu Luis?

— Vou lhes trazer algo especial. Um pouco de canjica com coco ralado.

— Canjica! Não brinca com coisa séria Seu Luis! – fala Emily admirada, que continua — Este tipo de produto não se encontra facilmente. É considerado um produto verde.

— Sim minha jovem, consigo com um grupo de não-identificados lá da noroeste. Eu o faço de vez em quando, um mimo que gosto de dividir com amigos e clientes queridos.

Todos agradecem o gesto carinhoso de Seu Luis, um sábio de jeito simples que uma vez anotando os pedidos, segue para a sua pequena, mas bem cuidada cozinha para fazer com carinho o jantar de seus amigos visitantes. Uma boa forma de fechar a noite.

— Que bom que viemos para cá Ena, me sinto em casa.

— Sim, só temos mais dois dias.

— Verdade, droga de carta que não chega. Só pode ser de propósito – resmunga Dei, irritado.

— Calma, eles vão mandar, isso é o de menos. Temos de ficar atentos ao que nos espera pela frente – responde Ena, deixando de lado o sorriso fácil que Seu Luis consegue colocar no rosto de todos os seus visitantes e após um suspiro, expõe o que pensa para Dei e Emily.

— Nós três sabemos que esta é a nossa última noite juntos como amigos, do jeito como somos agora. Durante o próximo ano, talvez nem consigamos nos encontrar pessoalmente.

— Verdade, não sairemos de lá pelos próximos doze meses, a não ser desistindo – lembra Dei.

— Será uma nova realidade, estaremos em campo. Isso vai nos mudar. As pessoas que somos, neste exato momento, deixarão de existir. Teremos experiências difíceis, novos parceiros… enfim, tudo vai mudar – avalia Ena, tamborilando com os dedos na mesa.

Um silêncio retumbante toma conta dos três amigos, cientes de que aquela noite seria a última em que estariam juntos como jovens normais, ainda sem o peso da farda de oficiais.

— Então vamos registrar o momento! – fala Emily, quebrando o tom sério que tomara conta da mesa.

Emily posiciona o ACI na mesa para tirar inúmeras fotos dos três juntos. Essa atitude devolve a leveza ao rosto dos três amigos, que novamente sorriem e brincam entre si diante das graças de Emily a cada foto tirada. E Seu Luis, que quase não gosta de uma boa bagunça, ouve as risadas e sai da cozinha para ensinar aos jovens como posar para uma foto com todo o charme. Aliás, ele jura de pés juntos que quando jovem suas poses foram o chamariz para conquistar a esposa. Óbvio que a gargalhada é coletiva, chega a dar vontade de chorar de tanto rir, e quem entra no Motito´s não consegue manter a seriedade, acaba rindo.

A conclusão geral é que Dona Leli gostava do humor simples e intuitivo de Seu Luis, pois o tal charme que ele jura ter, definitivamente, ninguém viu, sequer de relance naquela noite.

Assim que as fotos e risadas devolvem a leveza ao ambiente, Seu Luis volta à cozinha para pegar o jantar dos três amigos. E a noite segue tranquila até o final do expediente. Ali, parados, diante da porta do Motito´s, permanecem por mais algum tempo, buscando esticar a tranquilidade daquela noite até o último instante.

Já passava da meia-noite quando começaram a caminhar até o ponto do VeTrans, que levaria cada um deles para casa. Havia chegado a hora, e finalmente veio a coragem para se despedirem um dos outros, rumo ao que vem pela frente.

Aquele momento foi muito difícil. Primeiramente, abracei Dei, que conheci dois anos antes do início do treinamento para recrutas através da Emily. Ele me abraçou de volta com força e apenas disse — Boa noite e cuide-se, nada mais.  E assim que se afastou, Emily, minha amiga e irmã pulou no meu pescoço. Nos conhecemos no sexto ano do ciclo escolar e apesar de eu não ser aquela amiga animada, etc., sei que posso contar com ela, e ela sabe que pode contar comigo. Enquanto nos abraçávamos, percebi em Dei ao se afastar, uma inquietude que tentava ao máximo ocultar.

 Vi que estava com as mãos nos bolsos, chutava o chão e apenas nos fitava de esguelha. Quando percebeu que eu o observava, deu um breve sorriso. Naquele momento, vi em seus olhos castanhos uma imensa preocupação, daquelas que com certeza só pessoas que se importam com você são capazes de demonstrar, mesmo não querendo.

Assim que Emily avista o VeTrans se aproximando, chama Dei e nos abraçamos até o veículo parar e abrir as suas portas. Ela pula e nos beija o rosto, impossível não rir. Terminamos aquele longo abraço afirmando com toda a convicção que daqui a um ano comemoraríamos nossa formatura como oficiais no Motito´s.

Emily e Dei entraram, eu fiquei ali, vendo o VeTrans levar os meus melhores e únicos amigos embora. Meu coração ficou apertado, respirei fundo e pisquei várias vezes para não deixar que nenhum vestígio de tristeza marcasse meu rosto.

O céu estava incrivelmente lindo e com um azul escuro profundo, e mesmo com os climatizadores assobiando baixinho, a noite estava bem quente, mas não me incomodei. Segui o resto do caminho até em casa andando. A lua cheia parecia estar cada vez mais perto e amarelada. A única coisa que me veio à cabeça é que eu estava preparada, ou precisava acreditar estar pronta para ir em frente.

Agora falta pouco, apenas dois dias, dois dias, apenas.

Os primeiros traços de luminosidade que adentram o quarto de Ena não a surpreendem dormindo. Ela já se encontra de pé, apenas esperando um sinal da alvorada para sair e gastar a tensão que sente enrijecer seus músculos e ao chegar até a porta, percebe que Dec a vigia, esperando que ela o leve consigo.

— Hoje não filho, a tia não vai te levar na rua.

— Dec? Hoje você vai com a mamãe de sempre, daqui a pouco. A partir de amanhã, voltaremos ao nosso ritmo normal, sem a tia, fazer o que, não é? – fala Naira, já desperta ao filho de quatro patas que parece ter compreendido a explicação, voltando para a sua almofada, que já se encontra parcialmente ocupada por Niki.

— Você está bem, Ena?

— Estou sim mãe. Eu só preciso gastar energia, me mover rápido. Espero vocês no parque – fala Ena sem encarar a mãe, e quando já está para fechar a porta…

— Ena?

— Sim, mãe.

— Não se preocupe. Você está preparada – fala Naira, numa tentativa de acalmar seu coração.

Logo após ouvir as palavras da mãe, Ena a fita rapidamente e assente com a cabeça enquanto vai calmamente fechando a porta, o que contrasta com a força com a qual segura a maçaneta. Quando sente o som do trinco finalmente a tirar daquele momento inquietante, Ena fecha os olhos por um instante e respira profundamente, na tentativa de aspirar e absorver as palavras tranquilizantes da mãe flutuando no ar.

Logo que seus pés tocam a rua, Ena se espreguiça e segue num compasso de corrida leve até o parque onde se exercita com intensidade até sentir a inquietação ser superada pelo cansaço. Enquanto se apoia sobre os joelhos para retomar o fôlego, Ena percebe que Naira e Dec estão brincando próximos de onde deixou o seu ACI e água.

Assim que abandona seu corpo no gramado e antes que tenha a chance de levar a garrafa de água à boca, o seu ACI toca e na tela está escrito…

CONVOCAÇÃO OFICIAL

Centro Distrital de Treinamento de Recrutas

Aviso de Convocação – 4º Ano Superior

Recruta n. 197-03

Ena Dias da Silva

Ano 2407

                Por favor, abra os anexos, leia com atenção e confirme a continuidade no Ensino Superior de Recrutas em 12 horas.

            Ena lê o informe e por um breve momento chega a esquecer de respirar. O sorriso leve em seu rosto dá lugar a uma face séria e atenta.

Naira logo percebe algo diferente, o ar parece ter mudado em torno delas e assim que olha para a filha, ela compreende, o comunicado oficial estava ali entre elas, quase que em corpo presente. Havia chegado a hora de deixá-la partir e desta vez, por muito tempo, sim, muito tempo.

— Não faça isso filha.

— O quê?

— Não abra o comunicado aqui.

— Por que não? Só vou olhar, e …

— Não. Vá para casa, tome um banho e aí sim leia toda a documentação e assine-a. 

— Por que isso?

— Ora, tudo o que está aí é importante.  Será o seu guia pelos próximos doze meses. Vá para casa e leia-o com a máxima atenção.

— Certo, ok, vou fazer isso – responde Ena, duvidando da resposta dada, mas a adrenalina, a vontade de ler o mais rápido possível afasta de sua mente todo e qualquer pensamento destoante.

— Pode ir, ficaremos mais um pouco.

— Tem certeza?

— Absoluta filha. Vá, pode ir.

Ena não poderia ter outra ação senão levantar e ir embora, mas não sem antes dar um abraço na mãe. Naira exibe um sorriso pequeno e confortável, o máximo suportável que apenas aguenta sustentar por mais alguns segundos até que Ena não consiga mais ver o seu rosto.

 — Respira Naira, respira, respira… – fala para si mesma, mas ela não respira, lágrimas tomam conta de seus olhos e a visão fica embaçada. Seu coração fica pequenino e precisa se sentar para aguentar o peso de saber que o comunicado enfim chegou.

Agora é oficial, as palavras estão no visor, não era mais uma ideia, mas sim um fato. Dec vai rapidamente ao seu encontro e se deita em sua perna, buscando demonstrar seu carinho e apoio. Naira não queria ser testemunha da leitura da convocação de Ena, não queria ter em sua mente a lembrança daquele momento, queria ter forças para despedir-se da filha no dia seguinte, queria que aquele dia nunca terminasse.

Ena rapidamente chega em casa e segue para o quarto, larga o ACI na cama e toma um banho rápido. Ao sair, ainda enxugando os cabelos, encontra Niki sentada na cama olhando para o ACI, nem a sua presença faz com que tire os olhos do aparelho. Assim que Ena se aproxima, a gata dá um chiado, pula da cama e senta no puff, agora olhando para ela. Parece saber que algo ali é importante e que Ena irá embora.

Ao se sentar finalmente para ler a documentação, Ena conecta uma tela clone ao aparelho, onde consegue ver melhor as informações. São cinco arquivos: a Convocação Oficial; Termo de Responsabilidade; Código de Conduta; Orientações para o Trabalho de Conclusão de Curso, e o último e mais importante, a Declaração de Aceite para Continuidade e Conclusão do 4º Ano.

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