CAPÍTULO 2




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Ao embarcar, Ena encosta seu ACI no sensor de passagem e a catraca libera a sua entrada, ela senta no último lugar disponível, próximo à janela, costume que não perde por nada desde os tempos em que passeava com o pai e ele lhe apresentava cada detalhe da cidade, ou quando ia para a escola com sua mãe, nos dias de aula presencial.

Me lembro perfeitamente destes raros dias em que ia à escola, aproveitando a janela temporal anual, o período mais seguro para crianças saírem de casa.

Há quase dois séculos o ensino à distância deixou de ser uma modalidade para otimizar o tempo para se tornar uma necessidade. Inicialmente como uma medida para diminuir a circulação de pessoas em via pública, pois havíamos chegado a uma saturação no transporte. A diminuição de carros circulando não mudou o caos das horas de pico, a incapacidade da malha de transporte ficou evidente e qualquer problema de funcionamento tornava a ida para o trabalho ou a volta para casa numa guerra.  Algo urgente precisava ser feito.

A primeira medida foi remodelar o sistema educacional, que em dois anos se reformulou e tirou milhões de pessoas das ruas: pais com seus filhos, adolescentes e jovens. As aulas presenciais ocorriam em períodos de no máximo dez dias por mês.

Mas o que realmente tornou o ensino à distância uma obrigatoriedade, cheia de medidas de segurança tomadas de antemão, tem a ver com aquela manhã de maio de 2128. A região sudeste, que ainda existia na época, estava sofrendo com a primeira de muitas ondas de calor intensas que fariam parte da sua realidade futura dali para frente. Ninguém esperava que uma chuva aparentemente simples se tornaria rapidamente torrencial em todo o estado. Os institutos meteorológicos emitiram um alerta, os canais avisavam a todo o instante para que as pessoas voltassem para casa, saíssem da via pública, o alerta máximo para as chuvas foi dado, mas não a tempo. As imagens ao vivo do resgate de pessoas em meio à correnteza nas ruas e avenidas da cidade, por todo o lugar, e principalmente de escolas com mais de um metro de água e as crianças sendo resgatadas pelos bombeiros em barcos através do telhado correram o Brasil, mas cada região nos anos seguintes apresentaria a sua própria retratação de uma tragédia urbana.

Desde então, o sistema educacional só marca aulas a partir do sexto ano, quando as crianças já estão treinadas para lidar com situações de emergência, mantendo o sistema de presença em alternância mensal, por um período máximo de cinco dias seguidos. E após a grande mudança climática em 2198, um pouco mais de meio século depois, a realidade se tornou ainda mais hostil, tornando várias atividades profissionais não presenciais. O mundo havia mudado…

Ao ouvir o anúncio de sua parada, Ena retorna das lembranças do que aprendera nas aulas e desembarca, indo diretamente para o Motito´s, que está a alguns minutos de casa, para comprar dois jantares para a viagem.

O minirrestaurante é bem conhecido na região e faz refeições expressas, mas sem entregador, profissão que não existe mais. E para almoçar ou jantar no próprio local é preciso chegar cedo para ocupar umas das pequenas mesas de quatro lugares em madeira, uma raridade nos tempos de hoje, e sobreviver ao jeito incomum, cômico e pensador do dono do local.

A fachada é simpática e a iluminação do local é sustentada por um sistema de captação de energia solar vendido pelo governo, uma obrigatoriedade para todos os tipos de construções. A decoração interna, imita um restaurante do século XX, com paredes escavadas em relevo de tijolos retangulares e alaranjados, a parede está coberta de quadros familiares e com clientes. O lugar possui um pequeno balcão de madeira, onde um senhor simpático vem atender Ena prontamente e com um sorriso no rosto.

— Veja só… Ena, que prazer em vê-la – comenta Seu Luis animadamente.

— É muito bom vê-lo, e que cheiro maravilhoso… – saboreia Ena enquanto se apoia no balcão, inclinando-se para sentir ainda mais o cheirinho da comida.

— Criei um prato novo mocinha, a sua mãe experimentou ontem e já é fã – anuncia com o maior entusiasmo o sucesso, enquanto esfrega as mãos com satisfação e completa perguntando: — Que tal um almoço caprichado e sobremesa, a sua preferida, adianto logo!

— Impossível resistir, com certeza eu quero e também vou levar dois para a viagem e uma garrafa de 2 litros de suco de cupuaçu, pois a geladeira lá em casa só tem vento frio, estou morta de fome e muito cansada – admite Ena, bocejando logo em seguida, um sinal de fadiga evidente.

— É para já minha querida, seu pedido é uma ordem – disse enquanto calcula o pedido e retorna para dentro da cozinha para prepará-lo.

Enquanto isso, Ena lê a descrição e o valor num minivisor no balcão, clica no ícone pagamento do ACI, passa-o na frente do sensor e paga o pedido. Agora era só aguardar aquela comidinha feita com todo o carinho, diferente da insonsa dada aos recrutas, assunto de uma antiga conversa em sua folga anterior com o Seu Luis.

Após alguns instantes, ele retorna com uma sacola reciclável, retornável e alongada com o nome do restaurante, e dentro, os pedidos de Ena. Ao colocar no balcão, não perde tempo e apresenta a sua teoria, desenvolvida desde a última visita de Ena sobre a comida dada aos aspirantes e recrutas.

— Mesmo após séculos, a comida desses lugares de muitas fardas e sim senhores continua sem graça, talvez precise se tornar oficial de patente alta para ter acesso ao cheiro verde, tomates e especiarias. Não há outra explicação – disse sem titubear, levando o dedo indicador ao queixo e analisando seriamente a verdade dos fatos.

Enquanto pega as sacolas com aquele perfume, sem igual, Ena conclui rindo:

 — O senhor definitivamente é único, sem igual – acrescenta antes de se despedir. — Muito Obrigada Seu Luis.

— Laura adoraria ver você neste uniforme – disse com um pouquinho de tristeza, pois perdera a esposa, companheira de ofício, há três meses, mas se mantinha firme pela família que criaram e pelo amor que dividiam por esta alquimia, capaz de combinar alimentos e temperos, de forma a produzir lembranças olfativas e paladares em seus clientes.

Ena apenas assente com a cabeça e esboça um leve sorriso. Felizmente aquele momento de lembranças é interrompido por mais clientes chegando, e logo Seu Luis se enche de ânimo novamente. Ena sai devagar, abrindo espaço no balcão para os clientes recém-chegados, e segue para casa, que fica no outro quarteirão, uma caminhada breve de cinco minutos.

Ao chegar à porta do edifício de oito andares, o máximo permitido por lei por conta das reviravoltas climáticas, ela abre o portão, segue para o fim do corredor, cumprimenta os moradores que encontra no caminho, entra no elevador e desce no terceiro andar, onde se encaminha até a porta no fim do corredor, coloca o dedo no sensor, um clique e a porta se abre, finalmente, Ena está em casa.

Antes mesmo que a porta se feche, um comitê de recepção pula em sua perna, seu cachorrinho Dec e a gatinha Niki estão enlouquecidos de saudade.  Ambos cheiram loucamente a sacola em sua mão, ao mesmo tempo em que correm e pulam na sala, numa alegria genuína.

— Que saudades! Vocês sentiram a falta dessa mamãe? Hein? Eu senti muito a de vocês – fala carinhosamente aos seus bichinhos.

Ela atravessa a sala, olhando apenas de relance para o escritório do pai, e avança para a cozinha, onde coloca as sacolas e larga a mochila no chão. Logo após sente Niki se agarrar em sua perna tentando escalá-la. Ena se rende, pega a gatinha no colo e senta no chão da sala para também dar atenção a Dec, que não possui a mesma capacidade de subir em coisas ou pessoas.

Ena fica uns dez minutos imersa em carinhos entre eles, puxando a sua mão para receber afagos ou oferecendo a sua barriguinha, num gesto de amor, para que seja acariciada, e de tão bom chega a suspirar e fechar os olhos.

Finalizada a seção de carinhos, Ena se levanta e é seguida por Dec e Niki até o quarto. Ao entrar, abandona a mochila sobre um puff rosa e segue para o banheiro, onde lava as mãos e o rosto. Ao sair, as sentinelas mirins estão paradas, olhando para ela, que os manda para a sala, pedido que é atendido muito a contragosto, mas não demoram a achar uma diversão para passar o tempo.

Sozinha no quarto, Ena tira a roupa e segue até o armário embutido na parede, escolhe uma blusa sem manga branca e uma calça larguinha num tom verde água, que conhece apenas como cor, além de uma toalha, e segue para uma ducha. Assim que liga o chuveiro e a água escorre pelos seus cabelos e toca o seu corpo, uma sensação de tranquilidade finalmente a alcança. Após uns dez minutos de banho relaxante, ela sai do box envolta numa toalha e vai até o espelho limpar o vapor, e logo após fazê-lo, percebe o quanto o seu corpo mudou, ela mudou.

Os últimos três meses foram bem intensos e físicos, principalmente, mas apesar do dolorido que esta rotina deixa por muito tempo, como uma tatuagem de henna que se desfaz aos poucos, Ena se sente bem e gosta do que vê no espelho: uma mulher pronta para seguir em frente.

No espelho está o reflexo de uma mulher de 1,75 cm de altura, curvilínea e forte, resultado dos três anos de treinamento como aspirante. Enquanto seca os cabelos, crespos e pretos como um quartzo negro, aprecia a beleza de seus fios totalmente espiralados desde a raiz em porções bem pequenas, regidos por uma ordem aleatória ímpar, que qualquer tentativa de organização, por menor que fosse, destruiria a harmonia.

 Ao deixar cair a toalha para enfim vestir a roupa que escolhera, não resiste ao desejo narciso que cada um de nós possui de contemplar a si mesmo. Ena toca a sua pele com a ponta dos dedos de forma bem suave, o tom uniforme, o aveludado que não se perdera na árdua rotina de combate e o sútil brilho que aprecia, a faz lembrar do fruto africano da maboque[1].

Assim que sai do quarto, Dec e Niki a seguem rumo à cozinha, onde desembrulha uma das refeições ainda quentinha e senta para comer, mas não sem antes ligar o som da casa baixinho para quebrar o silêncio. Logo após almoçar, Ena se lembra que precisa esvaziar a mochila e lavar os uniformes, o que faz prontamente, mas não sem antes conferir o medidor de água da casa, que é controlado pelo governo, pois a água é racionada e limitada à quantidade necessária aos habitantes por residência.

Já no caso da luz, o prédio tem o sistema flex, que é obrigatório, e sendo necessário, ainda podem comprar via ACI energia para complementar o consumo residencial, sendo liberada para o morador em até duas horas. Enquanto a roupa lava, Ena volta para o quarto e se lança na cama para esperar o término da lavagem e acaba adormecendo.

Algumas horas depois, ela sente uma mão suave acariciando os seus cabelos, e assim que abre os olhos percebe que é sua mãe, Naira.

— Boa Noite, mocinha, bem-vinda ao lar!

— Hummmm, morri de saudades. É muito bom estar em casa – fala a filha durante um espreguiçar, antes de sentar à beira da cama para abraçar a mãe.

— Deixa eu olhar para você. Nossa… parece até mais velha – comenta Naira conferindo as feições da filha.

— Mãe… não mudei tanto, você me viu há seis meses – responde Ena.

— Eu sei, mas parece que foi há muito tempo.

— Já é tarde! Dec e Niki devem estar roendo os móveis de fome.

— Calma filha, os dois já estão forradinhos e estirados no chão da sala, mas eu ainda estou faminta e você pode esquentar o nosso jantar.

— Já estou indo!

— Ótimo, e enquanto isso, vou tomar um banho.

Algum tempo depois, Naira encontra a filha na cozinha à sua espera para o jantar.

— Hummmm, mas que cheiro incrível. Tem coisa pior do que acesso fácil à comida saborosa? — pergunta Naira ao passar por Ena, beijá-la na testa e se sentar.

— Acredito que não, não mesmo, talvez, chocolate, sorvete… – responde a filha acrescentando uma lista enorme de guloseimas e sonhando com cada uma delas.

— Chega Ena, minha nossa e hummmm… Amo este suco, Seu Luis é um anjo, perito em forno e fogão.

— Sim, pensei em você quando o trouxe. Ele continua um teorizador de mão cheia, me divirto com ele.

— Imagino… Então, sem mais delongas, vamos jantar.

— Afirmativo.

Durante o jantar, Ena conta como foram os últimos meses de treinamento como aspirante, e que agora precisa esperar o comunicado com a aprovação para dar início à próxima fase como recruta tático. Naira ouve tudo e fica feliz pela filha, mas não deixa de se preocupar com a nova fase e o que significa ser um oficial do Distrito, como era seu pai. E enquanto Ena lava a louça do jantar, Naira não resiste e externa sua inquietação.

— Filha, a sua vida vai mudar tanto. Eu queria estar 100% feliz com a sua escolha, mas…meu coração fica apertado. Eu sei que você não vai simplesmente se contentar em fazer relatórios de campo no entorno do distrito, você com certeza almeja ser como o seu pai, um oficial sempre atrás de grandes conquistas – disse Naira com o semblante pesado de preocupação.

— Mãe… Eu sei que você pensa que escolhi esta vida por causa do pai. Há verdade nisso? Sim, mas vai além. Eu realmente quero fazer isto e não sinto por nenhuma outra carreira o que sinto ao saber que posso fazer a diferença sendo uma oficial. Proteger e impedir os roubos HBN é mais do que importante. É o motivo de ainda existirmos – esclarece Ena enquanto se aproxima da mãe, toca o seu rosto e a leva para o sofá.

— Ihhhh… Vou ter uma aula sobre segurança do distrito – brinca Naira enquanto senta no sofá.

— Não senhora, se tem alguém nesta sala que compreende a importância dos recursos para todos nós, e tem em suas mãos a responsabilidade de manter a ordem em todos os distritos é você, mãe, controlando literalmente o acesso racionado de milhões de pessoas aos recursos que ainda conseguimos produzir.

— Desvio de assunto e elogios rasgados. Aprendeu essa manobra como aspirante?

— Mãe, quando você fica ansiosa com algo, a sua ironia assume o controle. Respira, por favor.

— Ok, ok, tudo bem… Eu estou respirando.

— Daqui por diante, tanto como recruta quanto como oficial, daqui a um ano, eu terei que enfrentar o que ocorre fora do distrito, uma realidade que te assusta e me provoca medo também, mas por favor, acredita na minha capacidade – argumenta Ena com a mãe, que precisa aceitar o destino da filha.

— Eu e o seu pai criamos uma filha incrível.

— Concordo em gênero, número e grau. E eu vou ter cuidado mãe, eu prometo – fala Ena rindo e deitando no colo da mãe.

Enquanto faz a promessa, Ena olha para o escritório do pai, na linha de seus olhos, e entende o medo não verbalizado por Naira.

Um silêncio acolhedor invade a sala. Naira acaricia os cabelos da filha por alguns minutos, antes de serem vencidas pelo sono. Ena acompanha a mãe até o quarto e a coloca na cama. A inversão de papéis diverte Naira.

— Que fofo, mas nem pense em cantar, a afinada aqui sou eu.

— Ahhhh… Isso magoa, sabia? – fala Ena antes de sair do quarto e sussurrar. — Boa Noite.

Após deixar a porta entreaberta para a gatinha Niki entrar e dormir na ponta da cama de Naira, como de costume, Ena se espreguiça e sente o sono vencer suas pálpebras. Ela entende a preocupação da mãe em relação ao que vem pela frente e finaliza o pensamento com um longo suspiro.

Logo após, ela se dá conta que Dec está de prontidão na porta de seu quarto, munido de sua almofada. Assim que abre a porta, o cachorrinho entra e arrasta a sua caminha até a altura da cabeceira da cama, ajeita-se com dois giros e deita, mantendo os olhos nos passos de sua dona que, ao deitar, finaliza o dia dizendo a seu pequenino:  —Boa Noite filhão.
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[1]              – Fruta africana de casca amarela e dura, que possui um interior marrom e agridoce.

 

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