CAPÍTULO 3

 



—————-

Naira acorda com o som do despertador de seu ACI, que por mais alguns minutos, nem a pegaria dormindo. Assim que decide colocar os pés no chão, sente Niki esfregando-se carinhosamente neles, sua forma de dar bom dia. E o ritual matinal começa: banho, roupa, acessórios. No espelho, ajeita cuidadosamente seus cabelos, puxando-os para dar um ar soltinho ao penteado preso por um lenço de seda, presente de Ena. Assim que sai do quarto, dá de cara com a filha na cozinha, preparando o café da manhã.

— Bom dia, aposto que este pequenino café da manhã no capricho vai ser o ponto alto do seu dia – fala Ena animada.

— Uau, que lindo filha. Obrigada, mas o que faz fora da cama tão cedo? Achei que dormiria mais um pouco.

— O costume de acordar cedo não deixa, então resolvi te fazer esta surpresa. O misto de pão integral está ótimo e seu café com leite está quentinho, aqui está – disse Ena ao sentar à mesa.

— Gostei do mimo querida e esqueci de te falar ontem, estarei livre hoje no horário da tarde, podemos almoçar juntas naquele restaurante ao lado do meu trabalho e fazer compras.

— Estamos falando de uma blusinha ou de 2kg de arroz?
— Na verdade, precisamos de ambas as coisas – responde Naira, lembrando da dispensa e da geladeira quase vazias.

— Então te espero em frente ao CCDP a que horas?
— Saio às 14h.
— Então combinado, 14h – concordou Ena.
— Tenha um bom dia filha. Até logo – fala Naira ao beijar a filha, pegar a bolsa e sair.

Assim que a mãe sai, Ena volta ao quarto para trocar de roupa e levar Dec para passear perto de casa, mas antes de sair ela vai à varanda e desce a proteção para deixar Niki em segurança, pegando um sol e brincando em sua mobília presa à parede na parte externa.

Assim que descem pelo elevador de serviço, seguem caminhando por uns 5 minutos até chegar ao parque. O espaço é muito bem cuidado com árvores, pista de atletismo, aparelhos de exercícios, pista de ciclismo e playground para as crianças. Tudo num único espaço, otimizado ao máximo para ser uma área de lazer, pois a região útil para moradia nos distritos brasileiros está bem reduzida, por isso não existem casas e é ilegal ter mais de uma residência ou tentar medidas que levem ao acúmulo de bens familiares com pena certa de desapropriação.

Após uns 40 minutos, Ena inicia seu retorno com Dec para casa e percebe que os climatizadores estão em funcionamento. Era difícil ignorar aquele poste preto e silencioso de dez metros de altura, que nos últimos quatro metros assume um formato de arco arredondado, indo para a direita e para a esquerda, num ângulo aproximado de quarenta e cinco graus, funcionando como um ventilador, despejando ar e vapor de água de forma bem suave no ambiente.

Existem dois em cada quarteirão, um jogo matemático que permite cobrir toda a área, buscando equilibrar a sensação térmica e a umidade em níveis saudáveis para a população. Apesar de saber que funcionam há décadas, ter a consciência de que são necessários à sobrevivência, à vida em movimento, ali, diante de seus olhos, não deixa de ser triste, pois isso demonstra a fragilidade daquele dia bonito e arejado, sustentado mecanicamente. Ao passo que se afasta deles, Ena se pergunta se um dia se tornarão peças de museu, e se ainda estará viva para ser testemunha desta alegria.

Assim que chega em casa com Dec, Niki já os espera de prontidão em frente a porta. Os dois seguem brincando e Ena joga-se no sofá, ficando de frente para a porta do escritório do pai, cômodo em que não entra faz um ano, desde o último pesadelo, quando sonhou que não enxergava o seu rosto, apesar de estar olhando para ele.

A sensação de culpa a corrói por dentro, poderia estar esquecendo o dia de sua morte e ainda assim lembrar de sua voz e risadas? Ena finalmente se levanta do sofá e caminha até a porta, estendendo as mãos levemente até os puxadores e abrindo. Assim que a porta se escancara totalmente, o coração de Ena dispara e suas mãos ficam frias.

Ela entra cuidadosamente no escritório e a primeira coisa que vê é a escrivaninha na lateral, toca-a levemente com a ponta dos dedos, se mantendo assim até encostar na cadeira em que ele sentava, fazia as suas descobertas, trabalhava e, em especial, reconstruía um livro que fora salvo por sua avó quando era pequena, um pouco antes da passagem de um furacão que devastou a região sul, uma área que não é mais habitada, nos limites com o distrito centro sudeste.

Ena morde os lábios e se detém no encosto da cadeira, apertando-a fortemente com as mãos e olhando ao seu redor, vê um mapa antigo e outro do novo Brasil, e na estante, os trabalhos de pesquisa que fazia com tanto carinho, às vezes junto com sua esposa, Naira, para que sua filha e tantas outras crianças tivessem uma história para lembrar, rever o passado, os erros e acertos, para criar um futuro realmente melhor.

Os olhos de Ena pousam com carinho nos livros que seu pai, o Alto Oficial Amir Dias, reunira durante muitos anos de sua vida. Ele sempre foi um oficial integro, astuto e, não por acaso, ocupava um dos três cargos de Oficial Investigativo contra Crimes HBN de todo o Distrito. Era responsabilidade dele, na época do antigo sistema de racionamento de recursos, ajudar a descobrir como era possível burlá-lo e assim colaborar efetivamente na construção do novo sistema que hoje rege a vida de cada cidadão nos três distritos brasileiros.

Quando era requisitado, o seu trabalho envolvia reunir provas criminalmente contra pessoas e descobrir que tipo de esquemas permitiam a obtenção ilícita de recursos HBN, muitas vezes sinônimo de desperdício e falta para outra família.

Poderia, há quatro séculos, parecer besteira o armazenamento de uma saca de 60kg de arroz, feijão ou milho em casa, mas num mundo com dificuldades climáticas severas para a produção de alimentos, onde o racionamento permanente virou a nova ordem para a sobrevivência de todos, caso você fosse o outro com fome e sem alimento para colocar na mesa para a sua família, o que faria se soubesse que o seu vizinho o tinha, e pior, estragou boas dezenas de quilos por armazenamento em condição imprópria, apenas por capricho?

Sim, o mundo muito antes do século XXI já conhecera as imagens difíceis e dolorosas que a fome produzira em muitos países em menor ou maior escala: a desnutrição, o risco de não ter leite para alimentar uma criança ou nada para colocar no estômago.

Depois da Grande Mudança Climática, não havia mais classe média, alta ou baixa e sim sobreviventes num ambiente adverso, fruto da ineficiência humana sobre os recursos que tinha e abriu mão de preservá-los, tornando o mundo um lugar destruído e devastado pela fome, doenças e desespero.

Além do trabalho investigativo, o pai de Ena era um oficial Resgatante, fascinado por recuperar a história do mundo, bonita ou vergonhosa. Um dos seus feitos foi encontrar a cabeça da estátua de Carlos Drummond de Andrade num lugar destruído, nas proximidades da costa brasileira, à sudeste do Distrito, uma área de escombros que um dia foi chamada de Copacabana.

Em outros momentos, junto com pesquisadores em áreas inabitáveis, ajudou a recuperar a história de como o mundo se desfez como um castelo de cartas, a humanidade sobrevivente tinha fome e fome desesperada não precisa de prato, mas de qualquer pedaço de alimento sujo de lama, terra ou até deteriorado. Parece horrível, mas lembremos que estas imagens já eram um prelúdio no século XX também, pessoas revirando lixões em países democráticos e desenvolvidos, ou nas ruas de países desmantelados por guerras, regimes ou endemias.

O dinheiro após A Grande Mudança não tinha mais nenhum valor, não existia mais sistema financeiro que lhe desse relevância como numa brincadeira de mal me quer, bem me quer. O que regia os interesses era a troca de um item necessário por outro, o escambo. Logo não era difícil imaginar o valor de uma cartela de remédio para dor, antibiótico, saco de arroz ou água potável, que no ranking das necessidades essenciais era melhor que ouro ou diamantes.

Sendo assim, imaginar que um único saco de arroz poderia estar sendo desperdiçado era um assunto sério. A volta daqueles dias de desespero que bisavós e avós sentiram na pele causava angústia.

O trabalho do oficial Amir era relevante dentro e fora do CIA, mas tudo mudou, mudou no dia do atentado, transformando Ena para sempre.

_____________________________________

Muito obrigada por sua leitura até aqui,

Deixe seu comentário.
At
é logo. 

Site – http://brasil2408.com.br/

Facebook – https://www.facebook.com/brasil2408/

Instagram https://www.instagram.com/brasil2408/

 

Comentários