CAPÍTULO 5




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— Ena? Ena? Atende o telefone. É a Emily! Oi?

— Nossa…

      Ena volta a si quando a voz de Emily invade suas lembranças, devolvendo-a ao presente. Relembrar a morte trágica de seu pai e como aquele dia a modificara para sempre era doloroso e nada poderia mudar isso. Ainda atordoada, ela leva as mãos à cabeça, descendo pela nuca até o pescoço e aguardando silenciosamente que a ligação de Emily caia.

       Assim que o telefone silencia, Ena puxa a cadeira do pai e se senta para conseguir se recompor da exaustão daquelas lembranças não muito claras que sua mente guardara. O único sentimento não perdido em sua totalidade naquele dia era a tristeza.

      Na mesa do pai há um porta-retrato dos três juntos num passeio que fizeram ao Museu do Mundo, Ena o segura e, apesar das memórias deste dia abrirem um alívio em seu coração, ela aos poucos acaba por voltar aos flashes inconsistentes do dia do atentado, um pouco antes de perder a consciência e só a recobrar horas depois no hospital, já na companhia de sua mãe.

— Ela vai ficar bem? Não vai?

— Claro, vamos fazer o possível.

Paaaaai… paaaaai… – implora uma menina de 12 anos com lágrimas nos olhos, semiconsciente e ferida aos vultos que a cercam.

     Em cinco minutos, a ambulância chega ao Centro de Atendimento Médico. Ana, a secretária de Amir desce com a menina da ambulância e os atendentes a recebem do resgate com as informações do estado dela e seguem hospital adentro. Na direção contrária, atendentes correm para aguardar os feridos que chegam um após o outro, carregados ou em macas. O responsável pela triagem grita para irem para lá ou para cá, conforme a gravidade do ferimento.

      Assim que entra, Ana percebe o tamanho do caos, pessoas sentadas, feridas e chorando. Ela segue a maca onde Ena está até o terceiro andar, onde fica o Setor de Tratamento Infantojuvenil. Ao saírem do elevador atravessam uma porta, mas Ana é detida por uma enfermeira.

— Me solta! Eu quero entrar!

— Não pode senhora, ela vai para a cirurgia, precisa aguardar, a senhora também precisa de cuidados médicos.

— A culpa disso é toda minha, eu prometi que cuidaria dela.

— Eu sei, eu sei, por favor, sente-se. Eu vou chamar alguém para cuidar de você. Aqui!

— O que aconteceu Senhora? Qual o seu nome?

— Ana Guimarães, meu nome é… Ana. Sou secretária do Alto Oficial Amir Dias…

— Calma senhora, sei que está nervosa e preocupada com a menina… A senhora disse Alto Oficial Amir Dias? É a filha dele?

— Sim, sim…. Ena Dias da Silva.

— Minha nossa! Senhora, aguarde aqui, por favor.

— O que…

— Há uma equipe do CIA aqui conversando com os feridos.

— Eu não vou sair daqui!

— Eu sei, tudo bem. Vou chamá-los.

— Eu espero… minha nossa, que pode ser num momento desses … Alô, não me liga, desaparece, some! Eu não vou sair daqui até ter a certeza de que a menina está bem. Eu devo isso a ela. Adeus.

— Voltei para limpar os cortes, ok? Vai arder um pouco, calma.

— Obrigada, ai…

— Pronto, pode deixar, eu termino, ajuda lá na triagem.

— Ela vai ficar bem, certo?

— Ela está com os melhores, não se preocupe, ela vai ficar bem. Pronto, eles chegaram.

— Senhora… Ana Guimarães, correto?

— Sim, senhor.

— Sou o oficial Carlos Prado, do Centro de Investigação Avançada – CIA. Eu conheço o Amir, a Naira e a Ena. Por favor, me conte o que aconteceu? Do que a senhora se lembra? Respire fundo e me conte, conte tudo o que viu e ouviu.

— Eu… Eu…

— Calma Sra. Ana, beba um pouco de água. Isso… beba devagar, agora respire, e me conte o que aconteceu.

— Eu estava na sala fazendo anotações dos últimos registros de pesquisa, uma variedade de cajueiro quase extinta nos limites do Distrito Centro Nordeste. Nem me lembro mais.

— Sim, tudo bem, a senhora estava na sala…

— É… e então o Sr. Amir saiu e disse que ia entregar um relatório.

— Onde? A quem? Isso pode nos ajudar a saber em que área do prédio ele estava durante as explosões.

— Eu não, eu não… lembro, não sei…

— Tudo bem, tudo bem. Do que mais se lembra?

— Eu me lembro… que ele saiu e disse que voltaria logo, a filha estava na sala dele vendo um mapa. Ela adora mapas, sabia? Ena adora mapas.

— Sim, eu entendo… Do que mais se lembra?

— Eu a olhei pela fresta da porta e estava tudo bem. Daí sentei e estava vendo os registros quando um estrondo balançou tudo, eu fiquei atordoada, o teto rebaixado caiu na minha cabeça, tinha tanta poeira, eu não sabia o que estava acontecendo, comecei a ouvir gritos, gritos e olhei ao redor, tinha tanta poeira… Foi quando os gritos da Ena pelo pai me trouxeram de volta e eu corri para a sala. E..

— Sim, continue…

— Eu abri a porta e Ena estava coberta de poeira, gritando “pai, pai”. Eu disse que precisávamos sair, mas ela se agarrou na mesa e chorava desesperadamente, eu puxava, ela resistia. Foi neste momento que um colega, o Breno, entrou e disse que havia sido uma explosão, uma bomba, não sei, não lembro, eu, eu estava zonza… Ele gritou bomba e quando eu ouvi o que ele disse, puxei Ena com todas as minhas forças e saímos dali. Segurei forte no seu braço e abri a porta para sair. Estava tudo confuso, empoeirado, a única luz era a da emergência sinalizando para as escadas. As pessoas pediam socorro, tinha feridos, outras caídas no canto, outras empurrando quem entrasse na sua frente. Eu só vi a direção em que corriam, a direção da saída, e segui o fluxo. Gritavam e desciam pelas escadas, a luz de emergência estava piscando e apagou. Os gritos, os gritos, eles tomaram conta, mas eu continuei descendo e Ena chorava, gritava, mas eu não podia parar ali, o alarme mandava evacuar o prédio e eu queria sair de lá.

— Calma, beba mais um pouco de água. Respire…

— Sim, obrigada. Eu me lembro que as escadas acabaram e então eu vi a saída principal. Eu continuei correndo e a Ena não parava de chorar. Eu via vultos gritando e saindo na luz à minha frente, era a saída, eu cheguei à saída e pensei que estávamos salvas e então veio a segunda explosão. Foi um estrondo muito mais forte que o primeiro, eu olhei, veio da lateral do prédio. Tudo estremeceu e então a fachada começou a cair, eu e Ena fomos atingidas por escombros, eu caí, as pessoas passavam por cima, eu a protegi, foi então que vi o sangue, o rasgo no braço, tinha tanto sangue, eu não tinha como conter… foi horrível. Ena não gritava mais, entrei em desespero, uma imensa cortina de poeira tomou conta de tudo, tudo era cinza, eu mal respirava. Eu sentia dor no corpo todo, mas consegui pedir socorro. Peguei Ena inconsciente nos braços e gritei com todas as minhas forças por ajuda. Finalmente veio um anjo e ele nos arrastou, nos puxou dali e nos trouxe para cá.

— Eu nem imagino o que vocês passaram.

— E a Sra. Naira, ela está no CCDP. Ela sabe que estamos aqui?

— Sim, acabamos de falar com ela. Ela está vindo para cá, mas não contamos que a filha está na cirurgia

— Oficial Prado? Posso falar com o senhor?

— Sim oficial, aguarde aqui e obrigado Sra. Ana pelo seu depoimento, sei que o momento é difícil, mas o quanto antes ouvirmos quem estava lá, mais rápido conseguiremos respostas.

— Eu entendo. É o seu trabalho. Tudo bem.

 

     De volta por alguns instantes à realidade, Ena olha para o seu ACI, confere as horas e lembra que marcou com Naira para almoçar. A conversa da noite passada a faz lembrar que o medo de sua mãe em perdê-la é anterior à sua escolha em seguir a carreira de oficial, tem a ver diretamente com aquele dia.

— Por favor, eu preciso saber onde está a minha filha!

— Calma senhora

— Sou Naira e minha filha é Ena Dias da Silva

— Pronto, terceiro andar.

      O hospital está um caos, pois há tempos não recebia tantos feridos precisando de ajuda. Os elevadores estão lotados, Naira olha para tudo aquilo angustiada e corre em direção às escadas até o terceiro andar.

— Minha filha! Disseram que ela está aqui, Ena Dias…

— Sra. Naira, finalmente!

— Ana, o que aconteceu? O que…

— Sra. Naira, a menina está na cirurgia, não corre risco de morte. Ela teve um corte muito profundo no braço que precisava de maiores cuidados, ela vai ficar bem.

— Ana, obrigada, obrigada, você salvou a Ena.

— Foi tudo tão rápido, eu nem vi…

— E o Amir? Onde ele está?

— Eu… não sei.

— Como assim? Era para ele estar aqui. Você não…

— Eu não sei, ele foi entregar um relatório e…

— Não, não, por favor, ele não…

— Eu não sei, eu juro, eu não sei o que aconteceu.

       Ao perceber que Amir não está no hospital, Naira se desespera, só consegue se apoiar na parede e sentir seu corpo escorrer até o chão, pois o último contato que tivera com ele foi a mensagem para almoçarem juntos. Exatamente quando estava se preparando para ir ao encontro dele e da filha, tudo aconteceu.

        As horas passam e o desespero aumenta, nada de Amir, nenhum contato ou notícia. O único alívio que Naira recebe é o de que a filha saíra da cirurgia para um quarto, o que deixa Ana extremamente aliviada.

      A cada instante a lista de mortos, feridos e sem identificação vai ficando mais extensa e aflitiva, as horas passam e nada de Amir, nada de sua localização. A falta de notícias só aumenta o desespero de Naira que finalmente é liberada para estar no quarto com a filha, o seu único alento.

         Naira e Ana entram no quarto de Ena, que está medicada e dorme profundamente. O alívio de ambas por verem a menina bem é o que permite a elas um instante de alegria no meio de tanta dor. Ana fica aliviada e se despede de Naira com um longo abraço, prometendo voltar no dia seguinte para visitá-las.

A noite vira madrugada e a todo o instante Naira acorda e aproxima-se da cama de Ena, o seu alento é estar com a filha sã e salva, ao alcance de seus olhos. Ela desliza a mão sobre o bracinho ferido da menina e chora em silêncio, tentando afastar de seu coração o mal pressentimento que só aumenta com o passar das horas e a falta de notícias do pai de Ena.

       Assim que um primeiro vislumbre de luz natural escorre pelas persianas do quarto, anunciando um novo dia, Naira acorda sobressaltada e percebe que Ena está acordada e olhando para a janela. Naira fica feliz, mas sua alegria se desfaz quando seus olhos se encontram com os da filha.

        Naira sente um frio atravessando sua espinha, Ena a olha de forma estranha, não pisca, apenas a acompanha com o olhar fixo e o que diz pulveriza as esperanças em seu coração.

— Já sabe do papai?

— Não filha, mas ele com certeza está bem.

— Não está não.

— Ena… Não diz isso filha.

— Ele morreu.

— Você não pode dizer isso querida, vamos ter esperança.

— Ele morreu mãe, agora eu sei, e eles sabem também.

 

        As palavras frias, ditas em tom suave por Ena, encolhem o coração de Naira que fica assustada com o comportamento da menina, e assim que resolve dar um passo em sua direção, a porta se abre e o oficial Carlos Prado se apresenta com um bom dia solene e pesado, sinal de más notícias.

— Sra. Naira… eu não sei o que dizer.

— Diz que ele está bem… que vai ficar tudo bem.

— Eu queria poder dizer, mas…

— Não, por favor…

— Eu sinto muito, mas o alto oficial Amir Dias está morto, ele deve ter percebido algo errado, eu não sei dizer ao certo, mas seu… corpo foi encontrado próximo ao local da primeira explosão. Eu sinto muito.

 

      Assim que as palavras do oficial Prado atravessam os seus ouvidos, Naira sente uma dor lascinante atravessar o seu peito, as lágrimas descem sem controle e só consegue soltar um gemido de dor que a contorce por dentro. Assim que ouve as palavras do oficial, Ena abaixa a cabeça e não demonstra qualquer reação, nenhum som, nada.

       A falta de qualquer ação de Ena assusta o oficial Prado e ainda mais sua mãe que se aproxima cuidadosamente da filha, levantando o seu rosto e colocando os seus olhos em confronto com os seus, e ao fazer isto, Naira enfrenta um olhar vazio e sem resposta de Ena. Ela sumiu.

— Ena? Filha? Diz alguma coisa?

— Eu vou chamar uma enfermeira.

— Ena? Meu amor, fala com a mamãe!

— O papai não vai voltar.

       Logo após aquela frase, o olhar de Ena fica vazio de qualquer resposta. Naira se desespera e sacode a filha que se comporta como uma boneca de olhos abertos. As enfermeiras entram e seguram Naira que grita o nome da filha em desespero seguidamente. O médico entra e examina Ena, percebendo que ela apenas acompanha-o com os olhos e não responde a nenhuma de suas perguntas. O estado de choque da menina é aceitável, mas triste e só o tempo fará com que volte a si e para a mãe.

           As investigações atravessaram o tempo, os restos mortais do oficial Amir são cremados e ele é homenageado como um herói que morreu fazendo o que sabia fazer de melhor, proteger o próximo. O atentado que deixou vários mortos e feridos foi atribuído a um grupo não-identificado, contrário ao rastreamento biométrico e financeiro em tempo real do novo sistema.

           O outro corpo encontrado no local da primeira explosão é identificado como o de um funcionário da área de informação do CCDP. As buscas em sua casa mostraram que ele planejava há algum tempo o ataque e por conta da conexão do CIA com o CCDP por causa do novo sistema, a sua entrada no prédio estava totalmente liberada, o que inclusive ocorreu, segundo registros do sistema de entrada e saída, na noite anterior do atentado.

       Quanto à identificação dos outros participantes, não obtiveram êxito, pois qualquer informação que tivesse não estava em meio digital. Um punhado de cinzas foram encontradas no meio da sala, mas nada pôde ser resgatado dali.

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