CAPÍTULO 6




—————-

      Ena respira fundo, confere seu reflexo no espelho do quarto e, antes de sair para encontrar a mãe, resolve mandar uma mensagem para Emily dizendo que liga depois. O dia sopra uma brisa levemente fria, a previsão do tempo já informou de chuvas fortes ao cair da tarde.

      Após uns vinte minutos Ena já está em frente ao CCDP no aguardo da mãe que desce dez minutos depois. O trajeto é curto e ambas seguem para o restaurante no quarteirão ao lado. O cardápio é simples e leve, peixe com legumes e arroz de ervas acompanhado de um suco de laranja, mas Ena não deixa passar a chance de pedir uma sobremesa, um pavê de chocolate caprichado que saboreia como se o mesmo estivesse a ponto de ser banido da culinária mundial.

— Minha nossa, parece que está ótimo.

— Hummmm. Deveria experimentar, some na boca.

— E do potinho também. Para onde vai tudo isso?

— Informação irrelevante mãe.

      Logo após o almoço e uma conversa frívola bem-humorada sobre o que vão fazer com o resto da tarde, Ena e sua mãe resolvem caminhar até um shopping a dez minutos dali. E enquanto caminham, Ena resolve tocar no assunto da noite anterior e respectivamente em suas memórias.

— Mãe?

— O que foi querida?

— Eu sinto muito por te deixar angustiada com a minha escolha de vida, ser uma oficial como o papai.

— Você puxou o seu pai neste quesito, me deixar tensa.

— Eu tenho muito de você também mãe.

— A gula por doces é toda sua.

— É sério, persistência, isso eu puxei de você.

— A beleza também, a paciência já não confirmo.

— Deixando a brincadeira de lado, eu nunca te agradeci. Quando o papai morreu… você passou o resto do ano sendo forte, muito forte aliás por nós duas. Eu jamais te agradeci por ter me trazido de volta à vida. Eu te amo! – fala Ena com um nó na garganta, ela segura o braço da mãe e ambas trocam um longo abraço.

— E o que mais eu faria? Perderia a minha filha também? Não! Jamais abrirei mão de você, eu estou do seu lado e tenho orgulho de você. Entendeu? – fala Naira com a voz embargada e acariciando o rosto de Ena.

      Um longo suspiro e um breve sorriso trocado entre mãe e filha alivia a emoção contida naquele momento e ambas seguem para o shopping. Lá dentro, as duas se divertem experimentando roupas, sua mãe compra alguns terninhos de corte arrojado e feminino, mas com um toque formal para o trabalho. Já Ena só compra blusas e calças básicas, pois aguarda o chamado para continuar o treinamento para oficial.

      Finalizada a parte do dia voltada para as compras divertidas, Ena e Naira se dirigem até a porta do shopping e aguardam o VeTrans para irem ao mercado, lembrando que a dispensa está vazia, mas o ACI de todas as pessoas na rua soa o alarme para instabilidade climática, o céu escurece como por encanto e o alarme sonoro do shopping convida todos a retornarem para dentro, assim como o ACI que indica o shopping como o local seguro mais próximo.

 

Por favor, alertamos a todos que se dirijam às dependências do shopping imediatamente. Alerta de instabilidade climática ativado. Tempo para o selamento: 5 minutos.

 

      O alerta se repete constantemente no temporizador que se ilumina na fachada, iniciando a contagem regressiva para o selamento. O céu é tomado por uma escuridão instantânea e ventos fortes começam a soprar fazendo um assobio longo e assustador. As pessoas correm, o VeTrans que tinha acabado de sair do ponto retorna, travas de segurança saem de sua parte inferior e se prendem ao chão, enquanto abre as portas para que as pessoas voltem para o shopping. Ena e Naira seguem as orientações do aviso e aguardam o que vem por aí.

      As instabilidades climáticas são até certo ponto regulares e esperadas, fruto do que aconteceu ao mundo. A previsão do tempo na atualidade é como um jogo de azar, uma chuva breve pode se tornar uma tempestade, uma tempestade pode virar uma chuva moderada. A única certeza é a de que vai chover, mas o que isto significa não há como prever.

      O tempo cessa no temporizador do shopping, e então seguidamente se ouve o som oco e surdo das contenções em todas as portas e janelas, uma a uma selando o lugar. As luzes brilhantes do shopping dão lugar às luzes amareladas de emergência, um novo aviso sonoro solicita que as pessoas sentem no chão e aguardem novas instruções.

      Logo após o aviso, todos levam um grande susto, a força do vento e da chuva nas contenções é muito forte e alto. Fazendo lembrar os contos de fada onde gigantes e lobos dizem que vão bater, assoprar e derrubar. A pressão é forte e o barulho insistente.

      Os adultos já estão acostumados, mas as crianças se assustam e choram, algumas levam as mãos aos ouvidos, tentando afastar a brutalidade daquele som. Ao lado de Naira e Ena tem uma menininha chorosa com seus pais, que a faz lembrar de si mesma na primeira vez que passou pela experiência do selamento sem a família, na escola.

 

      Eu me lembro claramente do soar destes alarmes no meu primeiro dia presencial na escola, o que mais me assustava era o prelúdio que a chuva insistia em dar para mostrar a sua força. Aquele assobio incansável do vento parecia sempre achar um local para entrar nas estruturas reforçadas.  O relâmpago se escondia por baixo de um tapete de nuvens liso e cinza no céu. Era estranho olhar e acreditar que dali sairia uma chuva forte, mas era uma realidade, eu chorei por dias, não queria voltar na escola e passar por aquilo sem os meus pais, mas a professora dizia para ficarmos calmos e aprender a agir num momento de selamento. Era possível sentir a força da natureza nas janelas que sequer tocava.

 

      A menininha que chorava, agora está calma e até sorrindo para os pais que a distraem com brincadeiras. Ela havia passado com honras pelo seu primeiro selamento fora de casa, outros viriam, mas era possível ver em seus olhos que saberia lidar com a situação.

       O caminhar do tempo trata de amenizar a tempestade e aproximadamente duas horas após o selamento vem o alívio, o alarme sonoro avisa que o clima está em situação estável, sendo preciso aguardar a mudança das luzes e a abertura das portas para se levantarem e seguirem os seus destinos. Assim que isto acontece, a vida toma o seu rumo novamente como se nada tivesse acontecido, as lojas rapidamente voltam a anunciar seus preços, coleções e as pessoas a olhar as vitrines. Já Ena e sua mãe voltam ao ponto do VeTrans para irem ao mercado.

      Pode parecer estranho, mas é apenas mais um dia na vida dos cidadãos do Distrito Centro Sudeste, ou de qualquer um dos outros dois distritos, nada de relevante aconteceu.

      Em não mais que vinte minutos depois, Naira e Ena já estão no mercado, muito parecido em estrutura com os do século XX, mas com algumas alterações substanciais que o tornam diferente, como a limitação de tamanho, o grande número de pedidos online para a busca e, especialmente, o racionamento controlado por câmbio.

— Sabe filha… eu gosto de vir aqui, gosto do cheiro das seções de hortifrúti e hortaliças – fala Naira, que acrescenta o motivo. — Já temos tanta coisa controlada que não consigo me acostumar com a ideia de alguém escolhendo até as minhas cenouras.

— A diretora chefe do CCDP reivindicando suas cenouras. Isso foi muito emotivo – ironiza Ena enquanto pega um carrinho.

— Eu falo sério mocinha, cada vez mais estamos perdendo contato com as coisas e as vivendo online. Não gosto da sensação.

— Nossa, que cheirinho bom – fala Ena experimentando o cheiro de uma pera.

— É disso que estou falando, o cheiro coletivo das frutas me lembra as poucas chances que tive de sentir o aroma de um pomar quando estava em treinamento para entender o que rege o CCDP.

— Mas é igual quando pedimos as compras, o cheiro da pera não muda – indaga Ena sem entender o que a mãe está explicando.

— Mas você não está experimentando o cheiro de uma, mas de várias, você não sabe o que é o cheiro de uma horta, você não conhece um frango ao vivo! Apenas viu em vídeo — exemplifica Naira à filha.

— O que isso quer dizer mãe? Que estamos perdendo o contato com o tátil, as sensações…

— Sim, em parte sim, você não conhece, por exemplo, o cheiro de terra molhada filha.

— No parque perto de casa, não?

— Não mesmo querida, o parque é um vislumbre, um ambiente controlado com algumas árvores frutíferas para nos dar a sensação de um ambiente de relaxamento e tranquilidade, mas está muito longe do que já foi real, palpável na vida humana.

— Acho que entendi – fala Ena pensando sobre o assunto.

— Seu pai amava o trabalho dele pela chance de ver e sentir o mundo que tínhamos e jogamos fora. Seu pai sabia o que era sentir o sol através da copa de uma árvore, a maresia. Ele queria tanto que tivéssemos isso de volta, que fosse possível recuperarmos o mundo a tempo da sua geração, mas infelizmente…

— Eu vou conhecer um pouco disso como oficial – relembra Ena.

— Mas como um soldado você terá preocupações e inimigos a combater. Seu pai foi um oficial, mas como um Resgatante ele era o melhor – conclui Naira.

      Ao se encaminharem para a saída do mercado, mãe e filha param numa das portinholas eletrônicas que conferem o racionamento via ACI.

Por favor, aproxime o seu ACI do sensor.

Identificação confirmada: Naira da Silva

Ocupantes residenciais: 2

Racionamento para quantos dias: 7

Por favor, passe os produtos e respeite o limite informado pelo câmbio do dia.

Obrigada.

 

      Assim que a máquina identifica o cliente via ACI e processa os dados solicitados, Ena começa a passar os produtos na esteira, enquanto Naira os coloca na sacola retornável. A diferença substancial dos mercados atuais é que eles funcionam, quase em sua totalidade através do sistema ACI, que entre as suas muitas funcionalidades, ajuda a controlar o consumo dos indivíduos, baseando-se num Acordo de Regulamentação Alimentar que especifica as necessidades a serem adquiridas para uma vida saudável, dentro do estado de racionamento permanente.

      Essas informações estão no Centro de Controle e Distribuição Pública – CCDP, que também usa o censo populacional para cruzar dados e prever o consumo da população, limitando a compra ao necessário, dentro de um período que vai de três a quinze dias. A cada item identificado por código de barras, a máquina calcula o quanto ainda poderá ser comprado daquele produto através do ACI de quem está fazendo a compra. O resultado final vai para o banco de dados do indivíduo, limitando também a quantidade no ACI de quem mais morar na residência.

      Um exemplo de como o sistema funciona pode ser conferido através da pera, o limite de consumo para duas pessoas desta fruta é de seis unidades por semana numa boa safra, caso contrário o limite cai para quatro ou até duas. Isso significa numa situação hipotética que Naira ao comprar seis peras no seu ACI para duas pessoas, hoje, impedirá que Ena possa comprá-las novamente no mercado dentro do período regulamentado, pois o limite já foi alcançado no cálculo de necessidades do banco de dados do CCDP, atualizado via câmbio, que soma os limites em tempo real e atualiza o ACI dos residentes de um mesmo domicílio, considerando também grupos específicos como crianças, idosos, doentes, casos especiais e gestantes.

      Não resta dúvidas que o câmbio principal desta era não é o financeiro, ele sequer existe, mas sim o alimentício, informado diariamente em painéis públicos pelo distrito, onde toda a população acompanha que cotas estão alterando para mais ou menos no racionamento.

      Após as compras finalizadas, mãe e filha seguem para o VeTrans. A noite já é dona do céu, limpo, como se nada tivesse ocorrido, mas o estado das ruas confirma que algo aconteceu. Sentada próxima à janela, Naira acompanha a limpeza da cidade no trajeto para casa, a maior parte da sujeira refere-se à folhas e material abandonado durante a correria antes do Selamento.

      Assim que elas chegam ao edifício e abrem a porta, imediatamente são recebidas por Dec e Niki numa alegria desesperada, pois os pobrezinhos estavam sozinhos durante a tempestade e, mesmo acostumados com as ocorrências, sentiram falta de suas mãezinhas. O resto da noite desliza tranquilamente para um novo dia.

 

_____________________

Muito obrigada por sua leitura  até aqui…

Site – http://brasil2408.com.br/

Facebook – https://www.facebook.com/brasil2408/

Instagram https://www.instagram.com/brasil2408/

 

 

 

Comentários