Na manhã seguinte, Ena é acordada por Niki roçando o nariz em sua cabeça e miando insistentemente, um pedido claro para abrir a varanda para que possa pegar um ar fresco e brincar.

Ainda preguiçosa, Ena atende o pedido da gata e vai até a varanda. A luminosidade contida no novo dia é imensa e até onde é possível perceber, o dia será ensolarado.

Enquanto se espreguiça mais uma vez, a caminho de seu quarto para trocar de roupa, sua mãe atravessa a sala rapidamente em direção à cozinha desejando um bom dia apressado, mas animado à filha. Na geladeira, Naira pega uma pera, um iogurte e duas barras de cereais e coloca em sua sacolinha térmica, ao mesmo tempo em que come um pedaço de queijo com presunto e o empurra com um pouco de suco de laranja garganta abaixo.

Naira demonstra claramente a pressa que está para sair, pois um dia pós-tempestade sempre gera trabalho extra, o que seu ACI confirma através das mensagens de voz em tempo real de sua assistente Beatriz, que informa sobre a queda do sistema em alguns lugares do distrito, o que causa o acionamento da versão off-line que não computa em tempo real o uso do ACI pelos cidadãos, o que causa um certo nível de confusão, especialmente em relação à compra de alimentos, pois o sistema não atualiza o câmbio flutuante do dia, valendo-se da data anterior.

Isso causa uma diferença para os usuários, comerciantes e empresários que reclamam, pois a não atualização do câmbio flutuante do dia gera perda para ambos os lados, pois o consumidor não vai conseguir comprar mais itens permitidos de um produto e do outro lado não é permitido impedir a compra de algum item que tenha diminuído a sua cota no câmbio. Há também as dificuldades de atualização de créditos financeiros como salário, transferências bancárias e o pagamento de contas. Ena ouve tudo e percebe que o dia da mãe será bem estressante. Só há tempo para um beijo rápido antes de sair.

Ena olha para a varanda e ri ao perceber que Niki, depois de uma boa coçadinha de costas na almofada, assume uma posição totalmente desgovernada para tomar sol, o que neste caso, como bem dizia a sua vó, nesta versão da palavra tem a ver com a total falta de modos ou ordem com que pessoas ou animais vêm a fazer algo, e este era o caso de Niki, totalmente esticada e ainda com a cabeça encostada na perna por dentro do C, como se estivesse num rolo. Até para Dec, seu amigo inseparável é estranho, ele não para de inclinar a cabeça de um lado para o outro como se quisesse entender que tipo de relaxamento ela poderia estar sentindo naquela posição inusitada.

O dia está ensolarado lá fora e acostumada a uma certa rotina de movimentos, Ena não pensa duas vezes, coloca rapidamente uma vestimenta adequada para corrida e exercícios, toma o seu café e numa sacola térmica coloca água, uma fruta, petiscos do Dec, um isotônico, e claro, o ACI é obrigatório. É hora de sair e aproveitar a manhã.

Após uns dez minutos ela chega ao parque com Dec, o lugar está movimentado, mas como Ena deseja fazer exercícios, ela segue para a parte alta do lugar, uma área menor com equipamentos e uma minipista de corrida de duzentos metros em curva. No local há pouca gente, as pessoas preferem fazer apenas caminhadas na parte baixa e seguir o dia. Rapidamente ela encontra uma sombra para deixar o ACI, a bolsa térmica e Dec abrigados do sol.

Os equipamentos de treino do parque estão aquém do que Ena está acostumada, mas na falta de outros melhores, o jeito é fazer uso dos mesmos, adaptando-os para as suas necessidades.

No simulador de corridas, além do usual é possível fazer agachamentos, depois ela passa para o puxador e trabalha costas e braços. O tempo para todos os outros exercícios é o mesmo e lá se vão cinquenta minutos em preparo físico.

Quando Ena finalmente segue para a pista de corrida, precisa desviar, pois Dec com seus latidos avisa que fez algo ao pé da árvore e a limpeza precisa ser imediata, e nesse meio tempo, o seu ACI toca. É Emily.

— Oi, Bom dia! Já recebeu o comunicado?

— Bom dia Emily, não, nada ainda.

— Já estou ficando nervosa.

— Calma, vai chegar.

— Precisa ser logo, estou muito ansiosa, sério. Aliás, aquele um que atende pelo nome de Caios recebeu, o Dei ficou sabendo.

— Prefiro não pensar nisso.

— Nem me fala, já imaginou? No mesmo grupo?

— Impossível, não tem como, a organização será distrital.

— Eu sei, mas o que você está fazendo agora?

— Treinando no parque.

— Jura! Garota determinada, não fiz nadinha de nada, agora fiquei com peso na consciência.

— Ótimo, agora se mexe! Pensei em irmos ao Museu do Mundo amanhã à noite, será o lançamento de uma exposição 3S, chamada “O Mundo lá Fora”.

— Que interessante, não ouvi falar.

— Nela podemos andar pelo ambiente dos três distritos e ver a antiga fauna e flora.

— E os fatos históricos?

— Não inclusos, pois o museu, sendo um lugar de arte não inclui política ou acontecimentos históricos nas exposições. Aí seria no outro museu com outro foco. E o melhor, neste horário é só para adultos. O que acha?

— Adorei a ideia, vou chamar o Dei e iremos os três.

— Combinado, às 19h.

— Ah sim, tem um restaurante superinteressante na mesma rua, podemos sentar e exercitar a nossa veia social, tentando ficar 20 minutos sem falar da bendita carta e qualquer outra temática relacionada.

— Ótimo, apesar de não acreditar que consigamos tamanho feito.

— Eu hein, vamos conseguir sim. Até amanhã. Bjs. Bye!

—Tchau.

Finalizada a conversa, Ena volta para a pista a fim de recuperar o trabalho de aquecimento que fizera e após vinte minutos de corrida leve e forte alternadas, ela segue até a árvore onde está Dec, ansioso para voltar e brincar com sua amiga Niki. Ena recolhe tudo, bebe um pouco de isotônico e desce para a parte baixa do parque, direto para casa.

A manhã transcorre bem, mas a tarde é absurdamente quente e só não cria uma sensação mais angustiante porque os umidificadores públicos são ligados em setenta por cento. Em casa Ena também liga o residencial, pois apesar dos prédios obrigatoriamente possuírem revestimento térmico, a sensação, o calor trazido pelo vento é abrasivo e as pessoas são obrigadas a fecharem as janelas de suas casas.

Em seu ACI, Ena recebe instruções de como lidar com o calor, incluindo instruções sobre o uso consciente dos umidificadores residenciais para não aumentar o consumo de energia. O único ponto positivo é a energia solar acumulada neste período de calor intenso que pode ter o seu excedente vendido ao governo distrital.

Niki e Dec aproveitam o frescor da casa e tiram um bom cochilo, enquanto Ena ocupa o seu tempo fazendo pesquisas sobre o tipo de missões que oficiais em treinamento costumam fazer, mas não há muito detalhes no sistema e quando resolve desligar, a sua atenção recai sobre um ícone que não havia percebido, novo, o símbolo do Centro Distrital de Treinamento de Recrutas.

Seguindo a lógica, outra boa possibilidade de entender o que vem pela frente é conhecendo os comandantes e responsáveis pelo treinamento, assim como suas carreiras. Na lista há um nome que chama a sua atenção de imediato, Alto Oficial Carlos Prado, a foto não deixa dúvidas, o tempo não apagou da memória de Ena o rosto do homem que conhecera no hospital, aquele que oficializou em palavras a morte de seu pai.

Da mesma forma que as paletas de sol refletidas pelas persianas na parede diminuem, os feixes de luz artificial em seu quarto crescem, envolvendo-o numa leve penumbra. Após horas de pesquisa, a ignorância de Ena sobre o destino daquele homem desaparece e dá lugar a uma linha do tempo, indo do início de sua carreira como aspirante à Alto Oficial e um dos membros consultores da Junta Avaliadora do Centro Distrital dos novos oficiais.

Aquilo fez Ena relembrar que apesar do pai ser reconhecido como um herói, nos cochichos de corredor, muitos oficiais o culpavam por não ter percebido que o grupo era uma ameaça latente. E no fundo, não foi difícil constatar que ao longo das investigações sobre as falhas na segurança, que apontaram oficialmente não haver responsável interno em relação ao atentado, os amigos de Amir, extraoficialmente, pouco a pouco foram se afastando da família e dando um outro parecer, não verbalizado, mas sentido na pele por mãe e filha, sozinhas.

Ao perceber que já é noite há algum tempo, Ena rapidamente se encaminha para a cozinha para fazer algo para a mãe, pois se não mandou nenhuma mensagem, provavelmente não conseguiu tempo nem para respirar. Uns quarenta minutos depois, um barulho na porta somado à corrida de Dec e Niki denuncia que Naira chegou.

Seu cansaço é visível, a bolsa abandonada no chão e mal tem forças para fazer afagos nos pequenos, felizes com a sua chegada. Seu corpo desaba no sofá e um suspiro de alívio ressoa no ambiente.

— Finalmente, o dia acabou… não aguento mais, estou exausta, moída, nem sei mais o que….

— Nossa… pelo jeito o que não faltou foram problemas.

— Não, não mesmo.

— E o que aconteceu, mãe? – pergunta Ena enquanto lhe entrega um copo de água.

— Hummmm… obrigada filha. Deixa só eu recuperar o fôlego, eu realmente estou exausta.

— Claro, descansa, mais uns vinte minutos e eu termino o jantar.

— Maravilha, mas apesar do cansaço, eu preciso de um banho, senão não me refaço, já volto.

Naira realmente está cansada, mas reúne as forças que tem e após vinte minutos, já sentindo-se mais leve, retorna para a cozinha onde Ena a espera com o jantar à mesa. 

— Prontinho mãe, deixa que eu arrumo tudo depois, apenas toma um gole deste suco que vai te ajudar a recuperar as forças.

— Está ótimo e eu realmente não vou fazer nada, hoje eu cansei, cansei de verdade.

— Sei que estes dias são cansativos, mas pelo jeito esse vai para a lista dos mais – avalia Ena.

— E vai mesmo para o primeiro lugar. O normal de um dia pós-tempestade e fora da temporada é exatamente o que você ouviu de manhã, nada demais, mas hoje tivemos problemas relacionados ao sistema e ainda um blackout parcial, parecem combinados, e é isso o que está me preocupando.

— Como assim, mãe?

— Nós ainda estamos avaliando e tentando descobrir como acontece, mas o sistema foi atacado interna e externamente ao mesmo tempo. Estávamos ocupados refazendo a perda de dados dos cidadãos numa taxa de vinte por cento acima da média, usando o backup que fica off-line do dia anterior e, de repente, sofremos uma pane de contato e ficamos sem comunicação alguma com todas as áreas que relataram problemas após a chuva, mas não era um problema do cabeamento interno, os técnicos verificaram e estava tudo perfeito. E uma hora depois, quando retornamos a conexão, além dos desaparecimentos de compras nos sistemas dos mercados e lojas, que normalmente acontece, mas conseguimos controlar, algo diferente aconteceu. E estes casos a parte é que deixaram o meu dia pesado e confuso.

 — Então os fan.bers atacaram?

— Sim filha. Esses fantasmas cibernéticos são um problema antigo e de raízes não resolvidas, você vai entender melhor quando passar para a próxima fase.

— Mas os fan.bers podem atacar o sistema? Admito que não sabia desse nível de ação. Isso é novo?

— Sim e não, mas eu não posso te contar tudo, por uma questão de segurança do sistema.

— Nem o que foi diferente hoje?

— Tudo bem, mas nunca comente o que vou dizer a você agora, nunca. O estranho é que alguns comerciantes farmacêuticos e outros relataram o que apelidamos de “compras brancas”, elas passam pelo sistema, mas não tem o registro de comprador e nem da mercadoria que foi adquirida. Os comerciantes só perceberam porque alguns dos remédios roubados estavam com o estoque baixo e o sistema não identificou a saída.

— Então isso é algo novo?

— Sim, novo e inédito para nós, não deixaram rastros, nada, estamos acostumados a lidar com a clonagem de identidades, o uso de dispositivos físicos de burlagem e outras coisas do gênero.  E para abafar o ocorrido, enviamos Oficiais de Seguro para contornar a situação de imediato com os comerciantes, pagando ou restituindo o que desapareceu, e claro, exigindo sigilo do ocorrido.

— E a população não deveria saber? Não entendi.

— Não, de modo algum. Ena, os problemas que o seu pai enfrentava estão mais evoluídos, nem todos os roubos são de fan.bers. A necessidade de levar vantagem continua, as pessoas criam, produzem, vendem e compram gatilhos para tentar burlar o sistema de inúmeras formas, fraudam o estoque de produtos para seguro… resumindo, se as pessoas souberem dessa nova modalidade altamente eficiente, além do pânico dos comerciantes em geral, podemos ter sérios problemas de racionamento. Como vamos identificar os roubos? Quem foi? Seria um caos!

— Isso é muito ruim mãe. Pode ser qualquer um, podem já estar aprimorando o uso para roubar água e energia.

— Então você está entendendo a minha preocupação. Isso está me tirando a tranquilidade, a minha cabeça está começando a doer. Acho que vou para o quarto desmaiar de sono.

— Boa noite mãe, não vou tocar no assunto, nunca.

— Eu sei meu amor. Boa noite.

Naira segue para o quarto visivelmente esgotada. Já Ena se detém por alguns minutos pensando na gravidade do ocorrido antes de se levantar e ajeitar a cozinha. Em seguida, desliga as luzes da casa e segue para o quarto na companhia de Dec e Niki.

A intenção de comentar com a mãe sobre aquele homem perdeu totalmente a importância diante da conversa que tiveram durante o jantar. Ao contrário do que acontece com Niki e Dec, que parecem dois rolinhos no chão em sono profundo, nenhum vestígio do mesmo alcança Ena, que vagueia em seus pensamentos, mais uma vez.

                  Quando eu estou sem sono, eu fico no escuro do meu quarto, na janela, quieta, olhando o mundo lá fora e vivendo
num outro dentro de mim. Foi assim que me recuperei
após a morte do meu pai.

 

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