Desde a sua morte, eu adquiri esse hábito de ficar no escuro, sempre no canto de uma janela olhando o mundo seguir em frente como se por alguns momentos eu não fizesse parte dele. De algum modo isso me tranquilizava e é assim há muito tempo.

 Fico maquinando um mundo dentro da minha cabeça como uma previsão, cheia de hipóteses sobre como isso ou aquilo acontece. É o meu mundo simulado, o meu mundo pessoal. Aqui não sou pega de surpresa por nada, eu sei de tudo, como tudo acontece. Sei se vou achar graça de algo ou me sentir triste ou com raiva de alguma coisa. Me imagino cruzando com o Prado nos corredores do Distrital, devo dizer algo? Preciso? Minha cicatriz sempre chega na frente e delata a minha identidade, ele vai saber quem sou.

Eu nunca disse à minha mãe e jamais direi, mas aquele um ano após a morte do meu pai, eu realmente fiquei mal por um bom tempo, não me lembro de nada exatamente, apenas flashes das coisas ao meu redor, vozes, remédios, muito sono. A única coisa que fazia sentido era a voz da minha mãe, nem sempre eu entendia o que ela dizia, mas a sua voz estava lá me salvando a cada dia dos pesadelos com o meu pai explodindo, das pessoas feridas gritando ao meu redor, do som dos estilhaços do prédio caindo sobre eu e a Ana que, aliás, não vejo há pouco mais de um ano.

A mais forte lembrança que tenho do local do atentado é a do meu braço rasgado e sangrando. Juro que às vezes sinto um formigamento na cicatriz, como se ainda estivesse aberto, quente e com a carne balançando.

Minha mãe adoraria que eu me desfizesse da cicatriz, mas não consigo, não quero na verdade. Meu desejo verdadeiro era lembrar de tudo o que o meu pai me dissera naquele dia. Mantenho a cicatriz para relembrar, revisitar. É a minha máquina pessoal do tempo, cravo as unhas nela e me transporto de volta para aquele dia.

Eu voltei a falar uns nove meses depois do atentado, mas com a minha mãe só falei uns dois meses depois. Levantei à noite e senti fome. Fui na cozinha, abri a gaveta e peguei uma faca. Minha mãe ouviu o barulho e foi para a cozinha e me viu com a bendita nas mãos, obviamente ficou assustada, mas dei as costas, abri a geladeira e peguei pão, presunto e queijo. Finalmente eu disse a ela que estava com fome. Nossa, minha mãe surtou de alegria quando ouviu a minha voz. Ela chorou muito, mas eu não.

Às vezes eu acho que o que me trouxe de volta à realidade foi a raiva, a vontade de gritar com todo mundo que achava que eu não ouvia ou entendia nada e parava para ficar falando da coitada da menina ou do pai que não percebeu o óbvio, tanto em casa como no hospital era a mesma coisa. Engraçado como todo mundo se torna esperto com as cartas na mesa.

Eu estava feliz, mas não era como antes, sei lá, eu só estava diferente. A psicóloga me irritava, ela sempre falava em remédios quando eu apertava a cicatriz. Uma vez fiquei sozinha com o suco dela na sala e eu tinha algumas pílulas para dormir que deixara de tomar há pelo menos uma semana. Quando a enfermeira me dava, logo virava de costas e as escondia no travesseiro, abria a boca, mostrava a língua e dava um sorriso falso que acredito, ela nem ligava. Fiquei muito tentada a misturar no suco e ficar olhando ela dormir, mas aí eu não sairia dali tão cedo, e eu queria ir embora, queria muito voltar para casa.

A mania de ficar acordada à noite na janela começou naquelas últimas semanas no hospital, eu ficava de olho nas sombras transeuntes debaixo da minha porta, e quando ouvia passos ou lembrava do horário da enfermeira passar, eu pulava na cama e fingia estar dormindo. Assim que me deixavam em paz, eu voltava para a janela e imaginava um mundo na minha cabeça, onde a minha família estava inteira, enquanto apertava a minha cicatriz. Eu a via como um lembrete de que mesmo os sonhos sendo muito mais lindos, eu tinha que voltar para a minha mãe no mundo real.

Eu ficava observando tudo e as pessoas ao meu redor, elas pensavam que eu estava medicada, fora do mundo, ficavam falando e falando, e eu só ouvindo, marcando a cara daquelas com quem eu jamais falaria novamente. Uma vez, quando minha mãe foi fazer compras, fiquei sozinha com uma vizinha, que se fazia de solícita e que ia na minha antiga casa, adorava passar o tempo falando mal do meu pai quando minha mãe não estava por perto. Ela começou a falar e falar, e eu não aguentei mais, gritei com ela, mandei embora, falei para ela nunca mais voltar, que inventasse qualquer desculpa e nunca mais aparecesse na minha casa ou eu cantaria, como um periquito, os podres dela ao telefone com nomes e datas. Os olhos delas saltaram para fora do crânio e ela nunca mais voltou. Eu deixei de falar com muita gente onde eu morava, mas nunca disse à minha mãe nada sobre isto. Só pedia a ela para mudarmos dali.

No fundo, a mamãe se sentiu aliviada ao mudar dali, fomos para um condomínio que o meu pai tinha visto com ela num anúncio ainda em construção e que aceitava animais, e assim finalmente saímos de onde morávamos. Foi um alívio imenso, passei a semana seguinte dormindo em paz, sem acordar à noite, livre dos vizinhos e dos mentirosos do trabalho do meu pai e lá da rua.

O único que me lembro, que realmente tinha jeito de ser amigo do meu pai era o Alto Oficial Marques, do Distrito Centro Nordeste. Ele nos visitou na época e ajudou, eu e minha mãe a fazermos a mudança. Nos contou em detalhes quando e como conheceu o meu pai, falou do cajueiro, da carreira que todos tomaram quando um aspirante cutucou uma casa de marimbondo, achando curioso aquele negócio zumbindo, pendurado ali na árvore. Rimos como há muito tempo não acontecia, me senti um tanto culpada, mas era a vida indo em frente. O Sr. Marques foi um amigo que não encontramos em ninguém por longos meses. Até a organizar a biblioteca do meu pai, exatamente como era na antiga casa, ele ajudou, seguimos fielmente as fotos, não queria mudar nada de quando esteve pela última vez ali. Ficou perfeito.

Mas difícil mesmo foi voltar à escola, mesmo que os dias presenciais fossem poucos, elas ficavam me olhando, dava para sentir nas minhas costas, aquilo era angustiante. Elas olhavam fixamente para o meu braço, até esqueciam que eu tinha uma cara quando davam de frente com ela fechada. Eu sei que a curiosidade delas era normal, mas eu era uma criança e aquilo me dava agonia.

Quando o transporte me deixava em casa, eu subia, ligava para a minha mãe avisando que estava bem, ela perguntava e eu respondia que estava tudo ótimo e exibia um belo sorriso no rosto, como uma criança normal, mas eu não era mais a Ena de antes do atentado. Era desligar e eu desmanchava meu sorriso falso e botava a minha raiva para fora, ia para o quarto e socava o travesseiro e chutava um puff menininha felpudo que eu odiava, mas a minha mãe achou que eu o amaria e eu não tive coragem de dizer a ela que não gostava daquele rosa pulsante.

Eu mudei, me tornei mais dura, não curtia tanto falar de coisas de adolescente, eu queria aprender sobre o mundo, saber porque aquilo aconteceu, entender a política ou sei lá o que tinha dado a ideia a alguém de explodir um lugar e ferir pessoas. Eu cresci e queria algo diferente, ficava de olho nos comentários da minha mãe sobre o trabalho dela, a importância dele para a ordem nos distritos. Tudo aquilo me empurrou para um destino, um desejo, o de me tornar uma oficial e fazer o necessário para melhorar a realidade em que vivemos, pelo menos no que é possível melhorar. O estrago anterior é um processo que só o coletivo, num esforço ininterrupto por muitos séculos vai amenizar, pelo menos é esta a esperança. ”

— Bom dia filha, acordou cedo – disse Naira lhe beijando o rosto e sentando para tomar o café da manhã.

— Bom dia mãe, acordei sim, eu preciso me movimentar e logo cedo é melhor para evitar a onda de calor.

— Sim, por um instante me esqueci disso, mas eu estou mais interessada na atividade social de hoje à noite. O que vai ser filha?

— Não é nada demais, marquei com o Dei e a Emily de irmos ao Museu do Mundo, tem uma exposição 3S[1] sobre o exterior dos distritos – responde Ena, finalizando o café e indo lavar a louça.

— Me lembro de ter ouvido falar desse projeto, alguns resgatantes doaram suas captações de imagem e estarão lá na estreia. Adoraria ir, mas ainda estou tão cansada de ontem. Poderíamos ir antes de você partir?

— Claro mãe – disse Ena acrescentando. — E podemos jantar. É só escolher onde quer ir.

— Perfeito querida. Agora eu preciso correr. Beijos. Tenha um Bom dia. Ah! E divirta-se hoje à noite, beijinhos para aqueles dois, corda e caçamba.

— Beijos mãe, vou dizer a eles – responde Ena rindo enquanto a mãe se dirige à porta.

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[1] 3S (s-digital) – Informação encontrada no capítulo seguinte.

 

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